Queres fazer um mini-brief ou uma apresentaçãozinha sobre ti?

// André

Queres fazer um mini-brief ou uma apresentaçãozinha sobre ti?

// Cristina

Então, Cristina Fonseca, tenho 29 anos, portanto estou a gozar o final dos 20. A razão pela qual as pessoas falam de mim e sou conhecida é porque sou uma das co-fundadoras da Talkdesk, e a Talkdesk foi, felizmente, a primeira empresa a fazer um acelerador. A primeira empresa portuguesa a fazer um dos top aceleradores de Silicon Valley que foi a 500 startups.

Quando eu e o Tiago estávamos a trabalhar nos nossos primeiros projetos, não chamávamos startup porque esse termo não existia em Portugal – e outra coisa curiosa é que nós não podíamos dizer que éramos empreendedores porque ninguém conhecia a palavra e ninguém percebia e por estranho que pareça isto foi se calhar há 6 ou 7 anos, não foi assim há tanto tempo.

// André

Portanto tinhas a minha idade?

// Cristina

Sim, e portanto o que aconteceu foi que nós fomos dos primeiros a apanhar desta onda do empreendedorismo e depois a Talkdesk acabou por ser das empresas de software service que mais cresceu na Europa, com um crescimento considerável nos EUA e, obviamente, um dos exemplos em Portugal.

Queres apresentar mais ou menos como é que nasceu a Talkdesk?

// André

Muito bem. Pegar então aqui na Talkdesk em si. Queres apresentar mais ou menos como é que nasceu a Talkdesk?

// Cristina

Sim.

// André

Dizem que é uma história bastante caricata, não é?

// Cristina

A história é curiosa e eu acho que é uma lição interessante, porque a Talkdesk, na verdade, nasceu de uma oportunidade e de um problema que nós tínhamos visto antes.

Nós desenvolvemos o primeiro protótipo para participar num concurso de uma empresa americana, cujo objetivo era ganhar um computador, e essa foi a nossa única e exclusiva motivação, mas a verdade é que, a tentar perceber o que é que nós podíamos usar nesse concurso, o que é que nós íamos capitalizar, percebemos que havia essa oportunidade foi um problema que nós tínhamos identificado antes.

Nós nos nossos projetos anteriores, sempre que alguém nos tentava contactar, íamos à procura de quem era aquela pessoa, portanto íamos tentar encontrar mais informação sobre aquela pessoa, tanto nas nossas bases de dados internas, como em outros serviços que nós usávamos. [Queriamos] perceber se tinham existido contactos anteriores. Quando surgiu a oportunidade de fazer comunicações online, percebemos que é um problema grave e, se eu estiver ao telefone, ainda maior porque quando me tocam ao telefone e é um número desconhecido.

// André

A probabilidade atenderes é bastante menor.

// Cristina

Sim, e na nossa questão era, se me ligar um cliente, que é um cliente importante, eu quero saber que ele é um cliente importante. Se me ligar uma pessoa que é só curiosa ou sei lá, que em última instância é estudante, um curioso, é minha competição, eu quero saber esses dados e portanto o Talkdesk nasceu assim. Foi eu quero saber tudo sobre quem me está a ligar e eu querer perceber o histórico que esse cliente teve comigo e toda a informação que eu já sei que é conhecida sobre esta pessoa. Portanto foi daí que veio a ideia e nós desenvolvemos um call center no browser – a que nós nos chamávamos call center. Inicialmente, recusavamo-nos a dar este nome e pôr em nós o selo de termos uma empresa de call center, que não era isso que nós queríamos ser. Mas, na verdade, o que nós acabámos por fazer foi um call center dos tempos modernos e é isso que o Talkdesk faz hoje em dia.

// André

Ok, e tu fizeste isso com o teu co-fundador que se chama Tiago, não é verdade? Vocês conheciam-se há muito tempo? 

// Cristina

Sim, nós fizemos a faculdade juntos.

// André

Foi no Técnico, não é?

// Cristina

Foi no Técnico, nós estudávamos os dois Telecomunicações e Informática.

Uma das coisas mais importantes nos co-fundadores é terem trabalhado juntos antes e nós fizemos imensos projetos de faculdade e depois começamos a fazer projetos on the side. Foi muito natural.

// André

Ok. Explica-me só aqui também a transição em si. Uma das principais motivações que inicialmente tiveram foi criar um computador. Como é que vos veio aquela ideia, essa empresa-mãe que lançou o projeto tinha alguma coisa de ligação com o call center ou…?

// Cristina

Sim. Quando eu digo que a motivação era ganhar um computador, nessa instância era, mas nós estávamos a tentar desenvolver outros projetos. Nós tivemos um ano a desenvolver projetos com o limited sucess falhados, nada que tenha tido um sucesso considerável.

Nessa instância, foi para ganhar um computador. A empresa que promoveu o concurso permitia-nos atender chamadas telefónicas no browser e depois desenvolvemos a funcionalidade e empacotámos aquilo num produto. Portanto foi esse o nosso valor criado à partida e depois o que nos catapultou para os Estados Unidos foi essa empresa ter organizado uma competição de startups numa conferência. Nós fomos convidados para fazer parte das equipas que integravam essa competição.

Eram 10 equipas, 9 americanas e nós portugueses, e depois nós acabámos também por ganhar a competição. Foi isso que depois nos deu o acesso à rede local de Silicon Valley e que resultou em convites para nós integrarmos duas aceleradoras – que depois aceitamos um deles.

// André

Então, vamos só fazer aqui um semi-passo atrás. Criam a Talkdesk porque também era um problema que vocês já tinham?

// Cristina

Exato. Era um problema que nós já tinhamos. Nós não tinhamos esse problema aplicado a telefones, tinhamos esse problema aplicado a emails e contactos escritos porque, sempre que um dos nossos clientes das outras aplicações nos contactava, a primeira coisa que nós fazíamos era…

// André

Ver o nome, Google, Linkedin, Facebook…

// Cristina

Nome, Google, Linkedin, Facebook, se está na base dados, não está na base da dados, se paga, não paga. Portanto íamos fazer este stalking manual.

Se fosse ao telefone era impensável eu dizer “Olhe, espere aí um bocadinho que eu vou ali e já venho”. Portanto foi transportar um problema que nós tivemos depois de muitas experiências falhadas com alguns clientes.

Temos coisas das quais eu me orgulho muito e que deram para aprender, mas na altura nós sabíamos que não eram escaláveis.

A Talkdesk parece que foi a primeira coisa que nós percebemos que tinha um potencial gigante.

// André

A Talkdesk, fazendo aqui uma transição só para eu perceber, lembras-te de uma extensão que havia para o Chrome há uns tempos atrás (que entretanto foi comprada pelo Linkedin), o reportive. Basicamente, eu usava aquilo bastante, mesmo depois de ser comprado, e é mais ou menos isso. Em termos telefónicos, ligam-te para a empresa ou contactam-te e tu, em tempo real, mal recebes o contacto, tens um historial de informação e de contactos.

// Cristina

Exato. Só que essa informação para além de ser informação pública é informação privada sobre as pessoas – essa é uma das componentes, o software de atendimento. A outra que é super importante é também a infraestrutura tecnológica.

Portanto, antes da Talkdesk, para montares um call center tinhas que falar com uma operadora de telecomunicações, tinhas que os contratar para te instalarem toda a infraestrutura tecnológica. Com a Talkdesk, não precisas disso porque isto está tudo na cloud. 

Portanto nós transportamos os call centers para a cloud, a começar na infraestrutura tecnológica e simplificamos bastante o software e permitimos a qualquer empresa criar um call center em menos de 5 minutos.

// André

Se por acaso vocês percebessem que havia esse potencial, mesmo que não criassem a empresa ou tentassem escalar, até para vocês dava jeito. 

// Cristina

Foi, mas, na altura, o mindset em que nós estávamos era tentar encontrar alguma coisa que fosse escalável. Nós andávamos a brincar à tecnologia e a tentar criar uma startup e sabíamos que, ou algo pegava, ou então tinhamos que encontrar outro caminho. Mas quando é um problema é muito mais fácil.

(...) as experiências passadas. Disseste que tens aqui coisas que te orgulhas bastante, queres dar assim um exemplo de duas?

// André

Então, pegando agora numa coisa que acabaste de dizer, vamos dar aqui uma volta para as experiências passadas.

Disseste que tens aqui coisas que te orgulhas bastante, queres dar assim um exemplo de duas?

// Cristina

Sim, por exemplo, a primeira coisa que nós fizemos era uma plataforma para estudantes do ensino secundário se prepararem para os exames nacionais.

// André

Isso foi há 6 anos também na altura do Talkdesk ou um bocadinho antes?

// Cristina

Antes, antes… foi um bocadinho antes.

Foi a nossa primeira tentativa de lançar algo. Foi uma coisa tecnologicamente fazível, nós éramos pessoas de engenharia e não era assim tão difícil fazer a parte técnica, mas depois aí o desafio estava em: “ok, agora tenho um produto. Como é que eu chego às pessoas ou como é que as pessoas vêm até mim?”.

Depois, em termos de mercado, era outra coisa que nós nunca fomos forçados a pensar: “será que há mercado para isto?” Depois percebemos que o nosso target eram estudantes que não tinham dinheiro e não queriam estudar.

// André

E provavelmente também não queriam pagar.

// Cristina

Sim, sim, não queriam pagar. Um estudante do secundário não quer pagar para estudar nunca. E portanto aí foi super interessante nós termos de aprender sobre online marketing, como atrair trafégo, como converter clientes, em A/B testings, foi aí que nós começamos a explorar toda a área do online. Obviamente, apesar do projeto em si não ter ido longe, a aprendizagem que tirei nisso foi sem dúvida.

Cumpriu o seu propósito. Foi um projeto que não foi muito longe, mas cumpriu o seu propósito.

(...) Olhando assim para o teu passado há alguma experiência que gostarias de alterar (...)?

// André

Tiveste a tua experiência, perceber o que é que funciona, o que é que não funciona. Olhando assim para o teu passado há alguma experiência que gostarias de alterar de alguma forma que não tenha corrido da melhor maneira que tu quisesses?

// Cristina

Não, eu acho que não. Mesmo se me esforçar um bocadinho, eu sou uma pessoa super positiva e eu acho que todas as experiências têm a sua razão de ser e de existir. Portanto, se me perguntas há alguma coisa que gostavas de ter alterado, não. Mesmo essas experiências falhadas foram importantes.

Portanto qual é que é o teu maior super poder nesse sentido?

// André

Então agora vamos para as tuas super características. São coisas bastantes simples, tentar perceber coisas em ti que te ajudem a capitalizar as tuas forças e as tuas características pessoais também. Onde é que tu sentes que tens fraquezas, mas também consigas trabalhar e quais é que são os teus hábitos? Portanto qual é que é o teu maior super poder nesse sentido?

// Cristina

É assim, eu não sei se tenho super poderes. Eu acho que, se calhar, há coisas que me trouxeram onde eu estou hoje em dia. Uma delas é uma capacidade de trabalho grande, da qual eu, às vezes, não me orgulho. Uma das coisas que eu estou a tentar fazer é ser mais disciplinada porque é muito fácil perder-me a trabalhar.

Quando me motivo com uma coisa, não largo. É mais ou menos assim que tu crias uma startup com 23 anos. 

Eu tenho uma capacidade de trabalho muito grande e acho sempre que vai tudo correr bem. Eu sei que não vai, mas eu continuo sempre a achar que vai. E depois eu acho que, sendo uma pessoa com um background técnico, eu também consigo falar não techPortanto, eu acho que consigo facilmente falar com clientes, consigo facilmente colocar-me na pele de pessoas que não percebem linguagem técnica e acho que faço muito bem a ponte entre o mundo de business e o mundo de tech – que é uma coisa que não é assim tão comum infelizmente.

E gosto muito de pessoas, gosto muito de trabalhar com pessoas empenhadas e com pessoas inteligentes, e portanto é isso que me dá energia. É ter uma equipa que gosta do que está a fazer, adora resolver problemas. Portanto tudo isto acho que fazem…

// André

… um bom conjunto de fatores de trabalho que te ajudam e te elevam tudo e depois tens a boa equipa, também trabalhas mais, depois…

// Cristina

… sim é feedback positivo. Tens uma boa equipa, trabalhas mais, estás motivada são só coisas positivas.

Qual é que é a tua maior fraqueza nesse sentido?

// André

Qual é que é a tua maior fraqueza nesse sentido? Há aqui uma força que tu consideres que às vezes até é tão bom ou tão forte que às vezes é a tua fault eventualmente?

Portanto onde é que tu identificas a tua ou as tuas maiores fraquezas?

// Cristina

É assim, eu sou uma pessoa pouco disciplinada. Gostava muito de ser mais disciplinada.

Às vezes, fico obcecada com uma coisa e esqueço-me um bocado do mundo. Também não devia acontecer. Às vezes ignoro emails.

Eu lembro-me quando nós trabalhávamos, tivemos cerca de dois anos e meio um bocadinho em modo fechados na cave a desenvolver produto e a trabalhar com clientes. A minha caixa de email era completamente out of control. A probabilidade de alguém me mandar um email para me convidar para qualquer coisa que ia acontecer daqui a três semanas e eu ver o email passadas três semanas era grande. Portanto há coisas que eu gostava mais genericamente na vida de ter, que estivessem controladas, mas it’s life. Já desisti de tentar que tudo esteja under control.

// André

Ideal para ti seria se calhar ter uma pessoa quase assistente ou quase assistente virtual.

// Cristina

Sim, mas eu acho que isso não te resolve o teu problema.

// André

Sim, não estou a dizer que resolve. É mais se te ajudasse pelo menos a tratar do inbox já era uma ajuda eventualmente…

// Cristina

Sim, há coisas que uma assistente resolve e que faz muita coisa, mas, no final do dia, alguém de tratar da inbox não te responde aos emails todos e não te resolve os problemas. E não vai por ti às conferências. Portanto é por aí e depois eu acho que esta indisciplina às vezes faz com que eu se calhar não consiga fazer esse exercício regularmente porque um dia ficaste a trabalhar até às 3h da manhã, depois no dia a seguir inventas uma desculpa para ti próprio…

Há algum hábito que tu tenhas que sintas que te ajuda?

// André

Ok, olha, por falar em hábitos. Há algum hábito que tu tenhas que sintas que te ajuda? Seja ler bastante ou o consumo de conteúdo constante. Algum hábito que tu tenhas ou alguns hábitos que tu sintas que te ajudam?

// Cristina

É assim, eu desde que sou adolescente ainda antes disso eu gostava muito de ler e acho que a leitura é uma forma boa de adquirires conhecimento super rápido. A informação que está condensada processada e que tu consegues ir um bocadinho mais deep do que se calhar artigos random que tu encontras online. Portanto, uma das coisas que eu recuperei mais recentemente é ler muito. Eu tento ler todos os dias e isso é daquelas coisas que é difícil, mas é tu acordas, puxas do kindle e lês 10 ou 15 minutos faz uma diferença enorme.

Portanto ler é se calhar dos melhores hábitos e depois andar na rua e ouvir podcasts ou conduzir e ouvir podcasts. Consumir informação na tua área para conseguires ter um fluxo de ideias novo.

// André

E teres conteúdo constante.

// Cristina

Sim, conteúdo constante. Consumir informação para conseguires ter ideias e o teu output ser trazeres criatividade ao teu trabalho

Já agora tens algum desporto preferido?

// André

Já agora tens algum desporto preferido?

// Cristina

Ui, eu nunca fui uma pessoa de fazer desporto.

// André

Gostas de ver mais se calhar?

// Cristina

Eu joguei ténis para me tentar tirar do escritório duas vezes por semana.

// André

Ok. Há algum tenista ou uma tenista?

// Cristina

Não. Acho que é mais for fun. Obviamente que via de vez em quando uns jogos e uns torneios mas nada de muito sério também volta e meia se um grupo de amigos for a um estádio de futebol também vou ver futebol mas não é porque sou fanática. É mais pela experiência mas nunca fui uma grande fã de desporto.

Se não tiveres a trabalhar o que é que gostas de fazer ao domingo à tarde?

// André

Ok. Se não tiveres a trabalhar o que é que gostas de fazer ao domingo à tarde?

// Cristina

A probabilidade de eu estar a trabalhar é…

// André

… elevada.

// Cristina

Ler. Faz claramente parte do objetivo de estar algum tempo com amigos ou família. Ir até à terrinha que eu sou de Fátima e portanto ainda são coisas que eu gosto de fazer. É family stuff. Volta e meia cozinho umas coisas, a vida normal.

// André

Por falar em cozinha qual é que é o teu prato preferido?

// Cristina

Ui… isso é difícil. Gosto muito de polvo, gosto muito de peixe. Sobretudo quando uma pessoa passa tempo no estrangeiro é muito bom voltar a Portugal e comer comida portuguesa sobretudo a qualidade dos ingredientes é difícil de encontrar.

// André

Pois, não sei eu nunca fui muito lá para fora. Por isso não tenho noção…

// Cristina

Também viajo muito portanto a quantidade de domingos à tarde que eu passo em casa não é assim tanta. Faço muito inicial de fotografia portanto até para me esforçar a sair e a prestar atenção ao mundo à minha volta, que é uma coisa que eu acho que generalizadamente faz falta porque nós passamos demasiado tempo agarrados aos ecrãs dos telemóveis e dos computadores e do kindell. E portanto acho que faz falta ir para a rua olhar em volta e foi esse o exercício que eu fiz de tirar um curso de fotografia e depois às vezes tento praticar.

// André

Online ou offline o curso?

// Cristina

Tirei offline. Em sala de aula foi giro. E é gira a sensação de voltares à escola outra vez foi antes da Singularity por acaso a Singularity foi também uma experiência super gira mas pronto…

Tens alguma superstição (...)?

Tens alguma superstição tipo assumas o poder de adivinhar um futuro estranho?

// Cristina

Não.

Último filme ou o teu artista preferido?

// André

Último filme ou o teu artista preferido? Um dos dois, o que preferires responder.

// Cristina

Último filme? Não me lembro. Ah, foi o Star Wars que é uma história curiosa…

// André

O  novo?

// Cristina

O novo. Porque sinceramente nem vi todos, não era fã, nunca fui, sempre achei que tudo o que fosse muito distante deste mundo e desta realidade me fazia um bocado… não é que me fazia confusão mas eu tinha dificuldade em sentar-me numa cadeira no cinema e transportar-me para aquele mundo como tu me dizeres “olha tipo agora vamos para o espaço”, era do género “shore”.

Decido não perder tempo com isso e depois a singularity em que havia uma quantidade gigante da turma que eram todos afixionados no espaço e vamos para marte, e o moon, e vamos construir coisas na lua. Depois de tantas conversas nesses tópicos tu começas a perceber o ponto de vista deles e é só uma questão de te colocares do outro lado e perceberes outro ponto de vista. E portanto fui ver o Star Wars recentemente e ok, consigo-me distanciar desta realidade e transportar-me para um mundo…

Então olha já que falámos aqui da Singularity University queres falar um bocadinho sobre a tua experiência?

// André

Já está a começar a haver barreira entre “olha começa a ver os outros” e depois “olha que giro” isto agora há ligação. Então olha já que falámos aqui da Singularity University queres falar um bocadinho sobre a tua experiência?

// Cristina

Quero. Vou começar por explicar um bocadinho o que é a Singularity University, que apesar de ter o nome de universidade não é uma universidade tradicional portanto não há testes nem exames.

Eu fiz um programa de 10 semanas, são dois meses e meio em que tu estás, é um programa super intensivo em que tu aprendes sobre as novas tecnologias. Os maiores problemas do mundo usando tecnologia e falas muito de como é que o mundo vai mudar nos próximos 5 a 10 anos, motivada por inteligência artificial, robôs, drones, espaço, discutes sistemas de educação alternativos, um conjunto de coisas, saúde.

Nós temos aulas das 8h45 às 22h da noite. Temos alguns breaks ali, mas é super intensivo. A certa altura, tu ao final do dia a primeira aula da manhã parece que foi a semana passada e não estou a gozar. Dói-te o cérebro, o cérebro expande. A quantidade de informação que tu absorves é gigantesca.

// André

Já foram algumas edições da Singularity University. Tu és das poucas portuguesas que já fez parte de portuguesas e portugueses no geral.

// Cristina

Sim, existem 4 pessoas, portugueses, que já fizeram o programa. O programa já existe há 8 ou 9 anos. Estou a falar do programa de verão porque depois há programas para executivos e aí há outras pessoas que já fizeram mas esse é concentrado numa semana e realmente é um exercício espetacular parar para pensar como é que o mundo vai mudar nos próximos 10 anos e se nós olharmos 10 anos para trás. Portanto se nós pensarmos não havia ipones, fez agora 10 anos. Se nós pensarmos quanto é que o mundo evoluiu nos últimos 10 anos é abismal. E tu fazeres o exercício de parar e perceber um dos co-founders da Google acredita que todos os carros vão andar sozinhos, vão ser self-drives. E acho que vai demorar mais tempo mas tu seres confrontado com estas opiniões faz-te pensar e portanto foi um exercício espetacular. Passei 10 semanas em Silicon valley.

// André

É sempre em Silicon valley?

// Cristina

É, é sempre no campus da NASA. Aquilo até tem uma envolvente super gira de tu viveres naquela sítio. E portanto sim passei 10 semanas lá. Foi o exercício que me obrigou a parar e a pensar como é que o mundo vai ser nos próximos 10 anos.

Tu foste selecionada para o Forbes 30 under 30 foi no ano passado?

// André

Tu foste selecionada para o Forbes 30 under 30 foi no ano passado?

// Cristina

Ano passado, sim, 2016.

// André

Qual é que foi a tua reação? Provavelmente já sabias que isso ia acontecer já há algum tempo, provavelmente já te teriam contactado. Como é que isso?

// Cristina

Sim, eu tinha sido contactada, mas eles contactam-te como a pessoa que está na lista de nomeados a ser avaliada ainda, portanto tu dás-lhes alguma informação e depois não sabes até a lista ser divulgada.

// André

Então sabes ao mesmo tempo que toda a gente.

// Cristina

É uma sensação estranha. É como se o mundo estivesse a gritar e a torcer por ti e as pessoas ligam-te e recebes imensos telefonemas e parabéns e tudo, mas no fim do dia tu estás numa azáfama a tentar resolver problemas e a tentar fazer o teu trabalho do dia-a-dia – que aquilo que acaba por te passar um bocadinho ao lado.

Eu costumo dizer é uma sensação muito parecida com quando tu anuncias as rondas de investimento. Os problemas continuam a estar lá, as pessoas são todas tipo go, go, go mas internamente aquilo não resolve nenhum dos teus problemas reais, Obviamente que é um reconhecimento espetacular do teu trabalho, é muito bom, é gratificante, é tudo perceberes sobretudo porque tem havido mais portugueses nomeados.

// André

Este ano tivemos dois.

// Cristina

Sim, este ano tivemos…

// André

O Miguel Santa Amaro e depois tivemos o CEO da Graphnest. E na Forbes Europa tiveste um também o Marco Barbosa da eSolidar.

// Cristina

Exato, isso foi no ano passado também.

// André

Pensei que tivesse sido este ano.

// Cristina

É muito bom ver portugueses neste ecossistema que era uma coisa que se calhar há uns anos não existia mesmo. E portanto, obviamente um orgulho para mim mas também um orgulho acho eu para Portugal.

Uma frase inspiradora que tu gostasses de partilhar?

// André

É assim mesmo, ok, é agora em tom de conclusão. Mantendo aqui a dinâmica e a comunicação dos super heróis há uma frase muito famosa do Uncle Ben que é “With great power came great responsibility” que leva a que ele tenha aquela vida toda. Há alguma expressão que tenhas algum dia ouvido, alguma frase, pergunta, o que quer que seja que tenha tido o mesmo impacto em ti? Uma frase inspiradora que tu gostasses de partilhar?

// Cristina

É assim com essa pergunta a primeira frase que me vem à cabeça é uma frase que eu acho que é muito poderosa e até acho que é um provérbio chinês, se não estou em erro, que é “if you wanna go faster go alone if you one go farder go together”. E eu acho que isto reflete o facto de as grandes startups, as grandes empresas, os grandes projetos são frutos de uma equipa e não de uma pessoa e isto remete-me um bocadinho para o espírito de colaboração.

Eu vim recentemente de Davos e a coisa que eu vi mais e até que me surpreendeu mais foi os chefes de estados, políticos, CEO’s de empresas tecnológicas todos pedem colaboração e todos te perguntam como é que nós conseguimos colaborar para resolver estes problemas e para atacar os desafios dos próximos 10 anos. E portanto eu acho que não é algo que uma pessoa ou um conjunto de pessoas individualmente vá fazer mas cada vez mais a colaboração é importante.

// André

Ótimo, só por curiosidade como a experiência em Davos foi o World Economics Forum não foi?

// Cristina

Sim, foi espetacular obviamente. Eu faço parte de uma associação que são os Global Shapers, grupos de pessoas entre os 20 e os 30 anos que se distinguem dentro das suas áreas de atividadde e que estão organizados localmente. Portanto um hub corresponde a uma cidade. Nós temos um hub em Lisboa e portanto o que nós fazemos é alguns projetos na área de educação ou ajudamos projetos que já existam nesta área da educação isto porque é uma das áreas que nós como grupo nos identificamos mais. Mas basicamente este grupo de pessoas importa-se com a comunidade local, com a sociedade em que tu vives e tentas ter um contributo positivo para esta sociedade.Háá mais 6.500 global shapers no mundo interior, anualmente são selecionadas 50 para integrarem o programa.

// André

São 50 hubs tambem?

// Cristina

Não, não são mais de 300 ou 400.

// André

Há hubs em que não entram pessoas naturalmente?

// Cristina

Portanto são selecionadas 50 pessoas para fazer parte do programa oficial de Davos e o que tu fazes é tens reuniões com líderes, sessões, participas em painéis, tens um papel muito ativo. O objetivo é tentar trazer uma perspectiva mais realista para estas discussões visto que já se percebeu que a juventude tem um papel muito importante na mudança e que os jovens são cada vez mais envolvidos em cargos de liderança e em papéis de mudança.

E portanto é trazer isso às discussões das elites (como eles costumavam ser chamados ainda são um bocadinho, mas pronto), isto foi uma forma de trazer uma perspectiva mais jovem. Foi espetacular.

O que é que tu vês aqui a acontecer daqui a 5 anos?

// André

E última questão, tu disseste no início ainda fora de entrevista que gostas muito de falar do futuro. O que é que tu vês aqui a acontecer daqui a 5 anos? Pode ser para ti, pode ser para o mundo…

// Cristina

Eu não disse que gostava de falar muito do futuro, eu disse que é importante nós pensarmos no futuro. Eu vejo o desenvolvimento tecnológico a mudar muita coisa à semelhança do que aconteceu nos últimos 10 anos. Eu acho que há muito coisa que vá mudar, mas isto traz-nos também a responsabilidade de acelerar esta mudança.

O sistema de educação precisa de mudanças. O sistema político preciso de mudanças. Nós não podemos esperar que sejam os outros a resolver os nossos próprios problemas.

Acho que em Portugal, por sermos um mercado pequeno, andamos sempre a correr atrás do prejuízo. Acho que ainda é difícil para nós criar o número de empresas que nos colocaria numa posição de destaque. Acho que temos talento espetacular em Portugal, mas depois falhamos em capitalizar esse talento.

Portanto, eu não sei o que vai acontecer nos últimos 10 anos.Se calhar vamos ter self driving cars com certeza, mas o que eu gostava de ter era uma sociedade em que as pessoas conseguem ser muito mais proactivas do que são hoje em dia. Resolver os próprios problemas através da colaboração, criar projetos engraçados e às vezes não precisam de ser startups. Este movimento todo das startups também veio criar a expectativa de que nós precisamos de criar billion dollar companies, unicorns, se eu não tiver algo para escalar até ao infinito então já não vale. Há empresas que se calhar… eu hoje estive a almoçar com um amigo cuja empresa foi adquirida pela Google quando eles eram quatro pessoas. É espetacular. Mas muito pouca gente sabe destas histórias. As pessoas tentam ser talk desks e empresas gigantes. São modelos diferentes, todos os modelos são válidos mas eu acho que as pessoas não se devem limitar pela promoção de determinado tipo de negócio. Gostava de uma sociedade muito mais proactiva e que criasse negócios pela capacidade e pelo desejo de inovar e é por aí. Agora não sei como vai ser o futuro.

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