Nelson, tens aqui 5 minutinhos que possas falar sobre ti.

// André

Nelson, tens aqui 5 minutinhos que possas falar sobre ti.

// Nelson

O meu nome é Nelson Pimenta, nasci em Moçambique, há muitos anos atrás, e os meus pais são de Viana de Castelo, onde passei a minha juventude toda.

Há uns tempos, fundámos (eu e mais uns colegas meus), o Surf Clube Viana, que é hoje uma das entidades mais importantes de surf nacional. Fiz parte da Federação Portuguesa de Surf durante algum tempo, da Federação Europeia e fiz parte do júri do Mundial de Surf.

Academicamente, arrisquei uma coisa que não tinha nada a ver – Engenharia Mecânica (influências do meu avô). Fui parar à UTAD, em Vila Real, entre ’91 e ’94 e, a dada altura, era preciso tirar a tal licença para “aprender”. Comecei do 0, mais tarde, no Técnico, em Lisboa. Foram uns tempos um bocadinho duros, porque, quem vem de Viana do Castelo para Lisboa, é um bocadinho duro. Uma transição dura. Relembro que nessa altura, 1995, não havia telemóveis. Imaginem o que seria a vossa vida sem telemóveis.

Dou aulas, mas já se falará sobre isso, e é engraçado ver as gerações que surgem agora e que em 1991 nem sequer existiam. Basicamente, o meu percurso foi esse e, basicamente, desde que vim para Lisboa, tive de fazer coisas muito diferentes.

O Técnico ajudou muito. É uma boa escola da vida. Entrei na Junitec e tive o orgulho de participar numa competição, onde nós criámos um “carro” de raiz, cujo objetivo era cumprir o maior número de kms com o mínimo de gasolina.

// André

Ah ok, já havia um certo sentido de sustentabilidade há 20 anos atrás.   

// Nelson

Sim, e a Junitec é uma júnior empresa que foi o nosso primeiro contacto com a gestão de uma empresa. Nessa altura precisamente, era preciso [haver um certo sentido de sustentabilidade] porque estava a surgir, em 1995/96, a internet – e a ganhar alguma força.

Foi aí que eu comecei a ver as minhas skills e onde comecei a tomar algumas decisões e a trabalhar nisso. Portanto, a fazer desenvolvimento html, precisamente numa altura em que explodiu a internet junto das marcas e etc. e era uma função que era muito procurada.

Decidi trabalhar e estudar e entrei para a Absolute System – que é uma agência web nos tempos pré-bolha muito muito importante. Nessa agência, aprendi quase tudo sobre development e, depois, em 2000/2001, fomos adquiridos pelo grupo Ogilvy em Portugal, porque faltava o braço digital na comunicação. Acontece que, em 2001, caíram umas torres num sítio longínquo – como eu costumo dizer – e houve um downsizing. Acabei por ficar e acumular ainda mais funções. Dentro do grupo Ogilvy, desde que entrei até ao ano passado, tenho vindo, ou vim, a desenvolver outras skills e outras funções, sempre a subir. Terminei a minha carreira na Ogilvy o ano passado (2015), em julho, como Head of social media para as marcas do grupo.

Eu conheci a Seegno em 2010. Foi a empresa responsável por fazer o site do Upload da Virgínia Coutinho, que organizou esse evento. Conheci-os nessa altura e trouxe-os para a Ogilvy como fornecedores.

[A Seegno]É uma empresa muito especial de engenharia de software. Faz tudo a medida. Não faz só sites, a especialidade é desenvolver aplicações online ou mobile, ou o que for, para startups. Ou seja, criar produtos de raiz que não existem. Podia perfeitamente ter sido a Seegno a desenvolver a Uniplaces e outros que nós conhecemos. E é aí que nós nos posicionamos.

Foram meus fornecedores durante muito tempo para alguns projetos de bandeira, nomeadamente quando trabalhámos a TMN – desenvolmemos um kickstarter em 3 semanas, exclusivo para a TMN, e, o ano passado, surgiu um desafio. Um desses projectos americanos ganhou contornos de unicórnio e absorveu quase toda a equipa da Seegno. E, de seguida, fizeram-me um convite para tomar conta da Seegno. Havia duas hipóteses: ou absorviam tudo e acabava a Seegno, ou eu pegava no volante e seguia.

Estou muito contente com a decisão, porque estou há um ano à frente da Seegno e já somos 15. Ganhámos outras skills de criatividade e felizmente tem corrido bem. A empresa está em Braga, mas nós temos escritórios em Lisboa. Somos apenas duas pessoas em Lisboa, mas basicamente temos clientes a volta do mundo.  

// André

Dá espaço para viajar, não é? 

// Nelson

Dá espaço para viajar, dá espaço para conhecer outras culturas e outros projetos, principalmente.

Como é que foi a transição das engenharias para web development para full on comunicação?

// André

Portanto, como é que foi a transição das engenharias para web development para full on comunicação? Digamos, Head of Social Media não é um cargo que seja propriamente simples. Como é que foi a transição gradual de engenharias para comunicação em si?

// Nelson

Isso é uma boa pergunta.

Tem muito a ver com o perfil de cada um e eu acho que tinha essas skills e não sabia. O que acontece é que, quando estamos inseridos num ambiente que nos rodeia diariamente, nós somos contaminados (para os dois lados). Eu aprendi tudo o que sei sobre marketing e comunicação na Ogilvy porque os meus colegas faziam e eu aprendi a saber fazer. Portanto, isto vai-se desenvolvendo.

Aquilo que nós gostamos devemos agarrar (acho que é essa uma das frases que me marca) e, agarrando, passamos a ser responsáveis por aquilo. É o dono da bola e, a dada altura, o dono da bola era eu, porque era a única pessoa que se chegava à frente. As coisas foram-se construído a partir daí.

As organizações adaptam-se àquilo que as pessoas querem fazer. E, dando já o primeiro conselho, se formos contratados para fazer community management e não fizermos mais nada, vamos ser vistos como “aquilo”. Portanto, se não dermos passos mais à frente, se não formos proactivos e decidir fazer coisas – mesmo errando -, vamos ficar sempre naquela função. 

// André

Isto é muito o espírito empreendedor. Empreendedor não é só aquele que faz e pronto e está na sua. Pode ser dentro da empresa ou dentro dos seus projetos, e haver sempre os seus side projects.

Neste caso conseguiste fugir daquilo que estava contratualmente ligado e fazendo mais e foste aprendendo.

// Nelson

Exactamente, ou seja, aquela minha vontade de fazer sempre coisas melhor e melhorar as coisas e ser proactivo já está inato, mas também se treina. E, dando espaço a essas pessoas, elas crescem necessariamente. Depois traçam os seus caminhos dentro da organização ou fora.

Dos quinze anos que estive na Ogilvy, nunca estive sempre a fazer o mesmo. Tenho de dar mérito a organização por ter visto isso.

// André

E por ter dado a oportunidade…

// Nelson

Exactamente! Acho que deve ser assim. Aliás, isso reflete-se agora na minha liderança. Faz parte do meu DNA de gestão que é dar espaço às pessoas para crescerem.

Passando agora para a Seegno e depois para a questão das aulas, como é que foi a transição?

// André

Passando agora para a Seegno e depois para a questão das aulas, como é que foi a transição? Voltou-se um pouco à parte das engenharias, mas foi uma mudança de carreira um bocado abrupta, ou nem por isso?

// Nelson

Foi uma mudança arriscada, por uma questão de timelapse. Eu perdi algum rumo da evolução das coisas. Tive que voltar a aprender algumas coisas, mas, basicamente, sendo a minha função de gestão, há pessoas que desempenham essas funções e eu só tenho é que perceber o negócio. Isso faz-se caminhando. Um ano depois estou duzentas mil vezes mais informado do que estava no primeiro dia.

// André

Estamos a falar em crescimento exponencial de conhecimento e de informação.

// Nelson

A minha transição para a Seegno foi mais numa perspectiva de “Eu sei que isto vai funcionar”, e funcionou. É este o modelo do futuro. Não tanto se é esta linguagem de programação ou aquela. Essa não é a minha função.

Entendi a Seegno como o futuro enquanto empresa e continuo a acreditar nisso, em que o hardware pode ser facilmente copiável, mas o software é que é a fruta proibida e, portanto, nesse sentido, não custou muito transitar de volta para a engenharia. A parte da comunicação e marketing também ajuda porque eles não tinham.

// André

Então, também foi o aliar de dois mundos que tu já tinhas. Isto também é uma coisa que eu tenho sempre curiosidade. Pode ter parecido um passo atrás, mas já sentes que estás mais à frente, em termos pessoais e até eventualmente profissionais (e, eventualmente, intelectuais), do que estavas há um ano atrás do que se te mantivesses num rumo dentro da Ogilvy. Sentes que estarias, neste caso, intelectualmente tão desenvolvido, ou consideras que foi mesmo exponencial?

// Nelson

Não te consigo responder. Eu sinto-me muito mais realizado um ano depois de estar na Seegno porque estive a fazer coisas completamente diferentes.

Há uma componente de desgaste que eu não sei que proporções é que tomariam um ano depois no grupo e a fazer o quê. A questão é, se houvesse espaço para fazer o que eu queria fazer na altura, provavelmente estaria tão realizado como estou aqui hoje, mass se calhars ainda ligado ao que estava ligado antes. Portanto não sabemos. O que eu sei é que eu iria fazer força para coisas mudarem.

// André

Para continuares a crescer e tentar sempre fazer para te sentires o máximo realizado possível.

// Nelson

E a organização também.

Vamos lá ver. Nós temos que ter uma visão do que é que acreditamos e devemos acreditar nisso. Eu acredito que os vários mercados se comportam de determinada maneira e os mercados da publicidade, e onde eu estava inserido, estavam a evoluir num sentido, mas não era para aí que estávamos a ir e eu tinha outra visão, e ia lutar por ela.

Tomando esta decisão, eu vou lutar por outra visão, noutro sentido, noutros mercados. Portanto, não faço ideia como e que teria sido, mas iria lutar, de certeza.

Experiências passadas, se possível falhadas.

//André

Passando agora a um novo segmento que é chamado de Experiências Passadas. É suposto eu fazer as duas perguntas de forma rápida, por isso é que a última palavra da segunda pergunta é uma grande gafe.

Experiências passadas, se possível falhadas. Erros teus, que sintas que tenhas falhado completamente, crash and burn, mesmo daqueles gigantes, ou então mais pequenos. 

// Nelson

É bom termos falhado e falhado redondamente e à bruta, que é para aprendermos. É pedagógico. Eu uso isso também no meu dia-a-dia e, muitas vezes, deixo as pessoas falharem, inclusive na educação dos meus filhos. Mas deixá-los falhar é a melhor lição que lhes pode dar e, nesse sentido, sim, concordo com a teoria americana: “se nunca falhaste, nunca vais ser ninguém”, não és empreendedor, não és nada. Mas não exageremos.

Falhar também dói, não é? Todos nós falhamos no nosso dia-a-dia, mas acho que essas não são importantes, aí aprendemos pequenas coisas.

Lembro-me de falhar num projecto, em 2000, com uns colegas nossos. Decidimos abrir uma empresa, já nessa altura focada em desenvolvimento de software à medida em open source. Provavelmente, era off timing e, confesso que, apesar de ter apresentado alguma resistência (e eles sabem, se chegarem a ouvir este podcast), eu concordei com eles a atirarmo-nos de cabeça a criar uma organização primeiro e arranjar clientes depois. Isso foi um erro crasso. Ou seja entrámos com custos, porque tínhamos de criar a empresa, porque tínhamos de ter escritório e eu acabei por concordar com isto tudo, e falhou redondamente.

Nós temos que ter os clientes primeiro., perceber se o mercado nos valida e depois perceber se aquilo é realmente um negocio ou não. Nós demorámos quase 10 anos a fechar a empresa, estou a exagerar… 5. E depois com 3 sócios, um aqui, outro ali e outro na Polónia. Enfim, é sempre dificil. Isso ajuda-nos a encarar essas coisas.

Depois há falhanços diários, humanos, pessoais,  profissionais. Quando fazes uma apresentação e não resulta, quando perdes um cliente, quando ganhas outro e afinal não é aquilo que esperavas, etc.

// André

Agora vem a tal pergunta com a gafe. Experiências passadas, se possível ganhadas.

// Nelson

Eu acho que todas as experiências são boas, até as más, mas aquilo que nos dá gozo é ter sucesso. É teimarmos com um caminho e depois chegarmos ao fim e percebermos que resultou, e que ajudou pessoas, e que nos ajudou. Isso enche-me de orgulho.

A Seegno, a Ogilvy,  todo o meu passado, a escola, as relações pessoais, etc., é feito de um balanço destas coisas.

Coisas ganhas: orgulho-me muito de ter participado na fundação do Surf Clube de Viana, enquanto organização, orgulho-me muito de ter participado nessas coisas todas que depois continuam a viver e que seguem em frente com outras pessoas. O Surf Clube de Viana diz-me muito. É o meu primeiro clube.

E depois, [orgulho-me] profissionalmente de ver realmente projectos que dependeram muito de mim e que chegaram a bom porto, ou um ano depois com a minha ausência e ainda tenho alguma ligação. E depois as pessoas que ficam e que continuam a elogiar. Eu ainda não falei, mas vou acrescentar aqui.

Eu também dou aulas e isso foi uma experiência muito engraçada, porque sempre disse que não tinha jeito para isso, ques se alguém interrompesse, eu expulsava toda a gente e ia ser um gajo execrável como professor. Acontece que descobri que tenho jeito para dar aulas. Foi um amigo meu que me recomendou. “Olha, não tenho hipótese nenhuma, queres tentar ou não?” E foi um daqueles pivots em que tu dizes: “olha, estou borrado de medo. Não tenho mesmo jeito nenhum, mas eu tenho que tentar.” E felizmente comecei a dar Social Media no IPAM – a minha primeira edição na Pós-graduação de Marketing Digital.

A minha primeira aula foi um horror porque a aula anterior tinha corrido muito mal, com um professor que depois saiu. Portanto havia pitches and forks pela turma toda.

// André

Já estava ali com um ganchinho pronto, com os anticorpos.

// Nelson

Exactamente! Foi horrível porque teve intervenção da escola. A direção interrompeu a minha aula para comunicar coisas e, quer dizer, aquele era o cenário onde eu estava inserido. Nunca tinha dado aulas e eram 4 horas seguidas. Eram 4 aulas de 4 horas e eu não estava minimamente preparado. Foi o pior cenário possível e, de facto, até hoje ainda me lembro dessa experiência porque consegui dar a volta àquilo de tal maneira que depois correu tudo bem.

Tenho estado a dar aulas nesse sentido, ainda ligado ao Marketing Digital e a Social Media. Na ESCS, com um protocolo via Ogilvy, com o qual ainda tenho um grande entendimento.

Depois os convites vêm naturalmente. Recebi um convite da Universidade do Algarve, porque tinha um estagiário que veio estagiar à Ogilvy e que precisava de uma avaliação na tese. Fui lá abaixo defendê-lo e à tese e acabou por sair um convite para abrir também uma Pós-graduação. Mais recentemente, na UAL, recebi um convite por parte dos antigos organizadores do original IPAM. E tenho uma versão online.

São coisas completamente diferentes em que o desafio é o formato. Ou seja, o conhecimento eu tenho, posso transmiti-lo mas depois é o formato. Tenho 4 aulas de 4 horas. Na ESCS são 14 aulas de 2h. Online são aulas todos os dias durante 28 dias, com muita interação.

// André

São formatos diferentes, portanto.

// Nelson

Exactamente. E lança grandes desafios de gestão de tempo, que era uma coisa com a qual eu achava que não tinha também talento. Mas acho que agora já estou convencido do contrário.

No fundo, são estes desafios e todos eles são mesmo barreiras no início e, depois de ultrapassadas, só servem para melhorar e para darem mais confiança.

Então, qual é o teu maior super poder, ou seja, a tua maior força?

// André

Agora vamos, então, passar a um outro segmento que eu gosto de chamar “as super características”, onde se faz jus à narrativa de “Nelson Pimenta, super herói da Seegno”. Portanto, são as características que sentes que te dão força e que têm peso na tua vida profissional e no dia-a-dia. Qual é o teu maior super poder, ou seja, maior força?

// Nelson

Eu tenho fazer um pequeno disclaimer. Não somos nós que nos definimos melhor e isto é válido para as marcas também. As marcas são aquilo que as pessoas dizem delas. Portanto, não há nada melhor do que, abertamente, pedir a alguém que nos conhece: defini-me. É neste sentido que eu vou transmitir. É a opinião dos outros, com as quais eu, se calhar, não concordo, mas isso é a visão que temos do espelho.

Há uma coisa que eu descobri, que tem a ver com as aulas e com dar conferências com cada vez mais audiência – até chegar a um máximo, até hoje, de 600 pessoas.

// André

Onde?

// Nelson

Na FCT, se não estou em erro. Numa formação específica para área farmacêutica, onde estavam também delegados de formação médica, etc. Uma coisa gigante.

Seja em nome da Ogilvy ou em nome da escola ou do que for, são sempre desafios que me aterrorizam porque é aquele stage fright típico. Aliás, nas Jornadas da Publicidade, da ESCS, em que vieram escolas de todo o país. Estava, não sei, o auditório cheio…

// André

400 pessoas, acho eu.

// Nelson

Aquilo é aterrador, mas, de facto, estamos ali para falar do que sabemos, torna-se fácil. E depois, quando a coisa funciona e as pessoas reagem, e os que estavam a dormir acordam e coisas desse género, dão-te ainda mais confiança para o futuro.

Voltando às características, aquilo que me dizem é que tenho algum carisma. Sou uma pessoa muito carismática e consigo atrair e juntar pessoas, ou, pelo menos, levá-las a acreditar no que eu estou a dizer. Acho que teria algum sucesso numa igreja universal ou coisa desse género, mas não o vou fazer.

Depois tenho um sentido de justiça muito enraizado. Isto tem a ver com a minha educação e dos que me rodeiam e que pode funcionar para os dois lados. Normalmente funcionam para o lado bom, mas, quando há injustiças, também funciona para o lado mau. Eu não suporto injustiças. Sou uma pessoa disciplinada, apesar de desregrada.

A minha mulher se me estiver a ouvir vai ser uma chatice, mas, dentro da minha desorganização, eu sou um tipo até organizado, tenho alguma disciplina. É um conceito que tenho de explorar, que é desorganização organizada. Devia haver uma cadeira sobre isto.

// André

É aquela questão que, na minha dimensão, tenho o quarto desarrumado, mas sei exactamente onde é que é que está tudo e está à minha maneira.

// Nelson

Eu acho que isso é uma verdade absoluta. E temos que explorar isso cientificamente.

Mas é isto. Ou seja, eu gosto de ligar as pessoas e gosto de ajudar. Dá-me orgulho dar um feedback a alguém, que depois leva isso e tem sucesso. Não necessariamente porque depois me pode vir a dizer que foi por causa desta pessoa no reconhecimento, mas porque, de facto, criamos algum impacto.

A Seegno é uma organização que realmente abraça projectos que tenham impacto e eu sei que a minha equipa depende disto. Não tanto do desafio tecnológico – que também faz parte -, nem do dinheiro que é importantíssimo, mas se tem, ou não, impacto o mundo. E isso para mim define muito o meu DNA e é por isso que eu estou na Seegno neste momento

Qual é a tua maior fraqueza, a tua kriptonyte?

// André

Qual é a tua maior fraqueza, a tua kriptonyte?

// Nelson

Às vezes tenho muita falta de paciência e tenho a perfeita noção disto. Isto também se trabalha, com meditação, concentração, o que for, mas eu tenho a perfeita noção que é especialmente no grau da injustiça, seja ela qual for. Ou porque alguém não nos paga, etc. Qualquer coisa que incite ao meu sentido de justiça, eu perco logo a paciência e este sentido não tem a ver com respostas violentas. Fico impaciente, o que me leva a tomar decisões mais precipitadas. Não é necessariamente negativo. “Porque é aquela pessoa não me manda email há três meses?” Fico impaciente. A minha vontade é mandar outro SMS ou outro email, sabendo que isso não tem impacto nenhum.

Fico eu impaciente e os outros não querem saber. Essa é a minha fraqueza. Se me tirarem a paciência já sabem que fico nervoso.

Tens algum hábito que definas?

// André

Isto aqui não tem tanto a ver com nenhuma característica, mas, sim, mais para aprender, mais para perceber como dominar o mundo.

Qual é o hábito que sintas que te ajuda a capitalizar melhor as tuas forças? Portanto, qual é o hábito que tu tens que te ajuda a capitalizar o carisma e ajuda a baixar a tua impaciência? Tens algum hábito que aches importante assinalar?

// Nelson

Tenho um muito importante que se chama relativizar. Foi a lição mais importante que eu já tive no mundo dos negócios, que é nada é tão grave quanto parece.

Relativizando mentalmente (isto, mais uma vez, treina-se), ficamos muito mais racionais e mais calmos para tomar decisões muito difíceis. Acredita que as decisões muito difíceis são sempre superadas por outras ao longo da nossa carreira. Aquilo que, para vocês, num primeiro estágio ou primeiro emprego, é um stress terrível -quando alguém vos pede para fazerem alguma coisa e não conseguem respirar e vão a correr para a casa de banho (guilty) -, hoje em dia, é tão normal que nem entendemos a reação. Esta coisa do relativizar é muito importante para a nossa vida.

Eu gosto muito de séries, também – Game of Thrones, por exemplo, quanto mais Gore melhor, mas também há outra que se chama Suits (é “Defesa à medida” em português), que é absolutamente genial, apesar de ser ficcional à brava. Harvey Specter, a dada altura, diz ao outro personagem (o Mike), mesmo com uma pistola encostada à testa e em risco de morrer, “tu tens uma opção”. Isso muda tudo.

Mesmo que estejas numa situação gravíssima, em que está tudo contra ti, se tu relativizares e pensares “larga isso. Vamos para casa, estar com a família, jogar a bola.” Se tu relativizares e diminuires o peso de uma decisão, tomas uma decisão mais acertada. E isso, para mim, é das coisas mais importantes que eu já aprendi. Claro que há outras.

Estou-me a lembrar do “comer o elefante às fatias”. Dou sempre este exemplo aos meus alunos. Tenho um projecto gigantesco para fazer amanhã, seja ele qual for. E o nosso stress é pensar logo num projecto como um todo e vamos adiando, adiando até à véspera do exame e depois é uma desgraça e só fazemos metade.  

O que eu digo, e tenho vindo a aprender, é começamos já hoje com uma pequenina parte e esse é o nosso projecto. O sumário, a introdução, o primeiro capítulo. Vou lê-lo três vezes. Vou fazer de conta que o resto não existe. E depois, quando damos por ela, já estamos no fim do livro, porque fomos comendo “às fatias”. É importante, mas isto aprende-se e liga com o relativizar.

Se eu relativizar a importância, se eu disser que eu não tenho mesmo capacidade para estudar tudo para o exame, então venha outra regra: às vezes 80% basta. Não temos que ser perfecionistas até ao extremo. Eu estou a fazer a transição para as aulas, mas podia ser outro projecto qualquer. Eu tenho uma campanha para amanhã. É impossível, então, se calhar, posso fazer 70% da campanha e isso serve. 

// André

Feito é melhor que não feito.

// Nelson

Sendo que eu sou a favor do perfeccionismo, embora ache que isso seja uma utopia. Devemos rigorosos, sim, mas às tantas não dá e, quando não dá, temos que ter essa capacidade de parar e dizer que não dá, dizer que vamos fazer só isto. E é esta relativização de tudo que guia o meu dia-a-dia para tudo. Por isso é que eu ainda me meto em mais coisas, porque sei que consigo relativizar tudo.

// André

“Comer um elefante às fatias” é uma expressão que nunca tinha ouvido sequer, mas acho que é uma frase bastante importante. E espero que todos os que estejam a ouvir sigam esta frase.

Passando para um próximo segmento, que é a questão do (Super)Humano. Já falaste de Game of Thrones, mas é a maneira de te tentar humanizar ao máximo e de te tornar mais próximo do ser humano normal – não que não o sejas, mas a visão que as pessoas têm de um CEO de uma startup ou de uma empresa acaba por ser bastante distante e aqui estas perguntas são muito rápidas.

Falaste há bocado do Surf Clube Viana, que é o teu clube. Sem ser o surf, algum desporto que sigas com mais atenção?

// Nelson

Futebol. E quem me segue sabe que eu sou um fervoroso adepto do FCP.

// André

Neste caso somos diferentes, mas conseguimos conviver na mesma sala.

Se não estiveres a trabalhar, o que gostas de fazer a um domingo a tarde?

// Nelson

Gosto de estar com a minha família, de estar com os meus filhos e fazer coisas com eles.

// André

Prato preferido?

// Nelson

Francesinha.

// André

Mesmo do Norte. Alguma superstição?

// Nelson

Não tenho superstições, não.

// André

Nada? Nem a famosa do entrar na sala com o pé direito? Dormir no mesmo lado ou apontado para algum local?

// Nelson

Acredito que algumas coisas que a gente faz tem influência noutras, mas provavelmente noutra parte do mundo, mas não me preocupo com isso.

// André

Falaste em Game of Thrones e séries mais gore. Algumas séries que sigas com mais atenção?

// Nelson

Walking Dead, Game of Thrones. Sofro muito quando elas não estão a dar.

// André

Uma série que eu gosto bastante também é House of Cards.

// Nelson

Também gostei muito de Stranger Things.

// André

Algum artista preferido: música…?

// Nelson

Tenho. No meu tempo, existia uma banda Bahaus e tinha um vocalista, que se chama Peter Murphy, e é uma pessoa que ainda hoje me toca muito, mas sou muito eclético. Ouço de tudo. O que me faz parar num menú é a francesinha, o que me faz parar no Spotify é Peter Murphy, mas é raro encontrar. Também gosto de Red Hot Chilli Peppers, mas ouço de tudo, house music, música clássica, etc.

Qual é a frase que queres que inspire ou que achas que possa inspirar os nossos ouvintes?

// André

Agora para concluir a entrevista, já tivemos aqui umas quantas frases, mas, da mesma forma que o Uncle Ben diz ao Homem Aranha “With great Power Comes Great Responsibility“, qual é a frase que queres que inspire ou que achas que possa inspirar os nossos ouvintes? 

// Nelson

Não estou muito preparado para isto. Já fui dizendo bastantes durante a entrevista.

// André

Já disseste imensas durante a entrevista, realmente.

// Nelson

Isto vai ser sempre cair numa frase típica: Faz o que gostas, porque custa muito menos e o mundo está preparado para nos receber. Se calhar, abre um bocadinho a porta ao futuro.

Adapta-te já, porque tudo aquilo que estamos a aprender, seja pelo nosso sistema de ensino ou pela forma de nós trabalharmos, vai mudar muito rapidamente. Ontem, estive, precisamente, na reunião de professores da UAL e alguém dizia, a propósito da Uber e dos Táxis, que os taxistas – e conheço muitos e bons – ainda não perceberam que daqui a 10 anos nem sequer os condutores da Uber vão existir e estão os dois a discutir algo que nem faz sentido.

Portanto, preparem-se já para o futuro. A boa notícia é que vocês vão poder estar a fazer algo que gostam, no futuro. Cada vez mais é isto. E portanto acho que estamos numa boa altura para nos reinventarmos e isso significa não ficar preso as escolhas passadas, mas pensar nisso como aprender algo, mas podendo fazer outra coisa qualquer. E esta não é bem frase mas: procurem fazer aquilo que têm jeito mas que gostem também, porque de facto é possível.

Basicamente naquilo que te rodeia o que é que tu vês a acontecer daqui a 5 anos?

// André

Tocaste aqui na última questão. Que é já falar aqui nos 10 anos, mas lanço-te o desafio que é: o que achas que vai estar a acontecer daqui a 5 anos? Aqui, contigo, na Seegno, Ogilvy. Basicamente naquilo que te rodeia o que é que tu vês a acontecer daqui a 5 anos?

// Nelson

É uma boa pergunta.

Eu consigo perceber mais ou menos para onde é que caminhamos. O futuro ninguém sabe, não é?

O que eu vejo é um mundo como nós o conhecemos. O emprego como ele é visto hoje vai mudar radicalmente. Há uma data de coisas que se fazem hoje que vão deixar de existir e isso não é necessariamente mau.

Se calhar, outra lição aqui pelo meio é que a mudança que vem deve ser encarada como positiva, sempre. A nossa resistência à mudança é um problema humano, mas, se olharmos para a mudança como algo positivo e refrescante, vamos ser muito mais felizes, de certeza. O que aí vem, não sendo necessariamente mau, é que há uma data de empregos que vão desaparecer.

Estou-me a lembrar que a IBM tem um computador que faz todo uma trabalho de um paralegal. Procura os artigos e devolve o parecer jurídico. Eventualmente, os advogados vão também deixar de existir.

// André

Tem um pouco de AI?

// Nelson

Sim, mas caminhamos nesse sentido. Eu dou sempre o exemplo de um filme do Tom Cruise, em que os carros são totalmente autónomos, a publicidade vai ser bastante retargeted. 

Se pensarmos pelo lado positivo, é que a sociedade global caminha no sentido de dar às pessoas mais tempo para viverem. E viver é estar com a família e fazerem as coisas que gostam. O conceito de emprego para sobrevivência vai mudar um bocadinho. Provavelmente num futuro próximo, as pessoas ganham para não fazer e para estarem uns com os outros e para viverem. Esta é a parte positiva que eu encaro no futuro da automatização.

A automatização serve para nos servir e para nos fazer poupar tempo.

Se algum dos ouvintes quiser entrar em contacto contigo como pode fazer?

// André

Se algum dos ouvintes quiser entrar em contacto contigo como pode fazer?

// Nelson

Tenho um nickname nas redes sociais (que não é nickname, é nome do meio) que é catroga. Na altura que eu criei ninguém da família entrava. catroga@gmail.com. Mas se quiserem contactar mais imediatamente será através do twitter, catroga.

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