Daniel, sê bem vindo e agora que já te fiz uma pequeníssima apresentação orienta-nos aqui um bocadinho mais sobre quem tu és.

// André

Daniel, sê bem vindo e agora que já te fiz uma pequeníssima apresentação orienta-nos aqui um bocadinho mais sobre quem tu és.

 

// Daniel Araújo

Estudei gestão na Católica, no Porto. Já na altura, talvez no segundo ano, percebi claramente que queria lançar projetos. Como fui sempre um bocado nerd sabia que tinha haver com tecnologia na altura não havia muito o termo startup ou todos estes termos que entretanto foram criados mas já estava focado em criar negócio, empresas e que de alguma maneira iriam estar ligadas à área da tecnologia. Depois fiz imensa coisa durante a faculdade, vários projetos que foram começando. Fui para Paris, tirei mestrado ligado à área de empreendedorismo. A ideia era dar mais ferramentas, ser um bocadinho mais hands on em termos de feedback, de fazermos planos financeiros, testá-los. Falar com pessoas da área específica, fazer pitchs. Portanto, fazer essas pequenas coisas que na altura da faculdade ainda não havia. E em 2009 havia a possibilidade de lançar esse projeto que eu fui desenvolvendo em Paris mas surgiu a oportunidade da Google então achei que devia priorizar isso e acho que também na altura eu percebia que era uma excelente oportunidade para eu também apreender como é que a Google recruta, como avalia a performance das pessoas, lança e mata projetos. É uma experiência que ainda hoje, agora que nós estamos a lançar a nossa própria empresa também ajuda imenso em sabermos o que fazer em várias áreas.

// André

Pegando numa coisa que falámos a primeira vez que nos conhecemos, tu foste um dos co-fundadores da Católica Students Corporation não é verdade?

// Daniel

Sim.

// André

Engraçado. Quem me conhece sabe que eu também ajudei a criar a minha junior empresa na ESCS e engraçado que a Inês Santos Silva também trabalhou numa júnior empresa e o Nélson Pimenta trabalhou na JUNITEC e aqui na rádio do Técnico onde nós estamos a rádio 0. Tem piada que dos quatro convidados que já tive três tiveram, ou fundaram, ou trabalharam em juniores empresas portanto é engraçado ver que o empreendedorismo é de início.

// Daniel

Exatamente. Havia muita gente que saía da Google para lançar empresas e havia um debate a nível dos RH a dizer “mas o que é que nós estamos a fazer de mal que as pessoas saem todas.”. Percebemos, não. É o tipo de recrutamento que nós fazemos é o perfil que nós procuramos que eu acho começa a ser criado durante a faculdade e uma das maneiras de se materializar esse perfil é nas juniores empresas, sem dúvida.

// André

Só por curiosidade e fechando aqui um bocado de tema, tenho a impressão de que a Google também lançou uma espécie de incubadora interna que é para tentar ter a certeza que o pessoal não foge…

// Daniel

A Google tem várias iniciativas dentro da empresa para apoiar as pessoas e de apoiar o empreendedorismo em geral. Desde um ramo de non-profit (…) entrepreneurs que tem várias coisas debaixo dessa área como os Google Campus, ou Campus London,  Campus Madrid, Campus Varsóvia, e penso que em São Paulo são imensas iniciativas que a Google cria. Algumas específicas para as pessoas que trabalham dentro da Google e outras para a comunidade em geral. A nova incubadora é uma tentativa dos projetos começarem a ser criados com alguma ligação à Google mesmo internamente e é uma forma de reter também o talento dentro da própria empresa.

// André

Tu nos 5 anos que estiveste na Google estiveste onde basicamente a trabalhar? Em que área?

// Daniel

Eu tive duas funções quando lá estive. Um ano e meio em Dublin e depois três anos e meio em Londres. No primeiro ano e meio, o meu trabalho era muito gestão de comunidades ligadas ao Google Maps e Google Chrome em específico. Fazíamos um bocadinho a ponte entre os utilizadores desses produtos e as equipas de engenharia. Nós tentávamos ajudar a perceber quais é que eram os problemas que as pessoas tinham e tentávamos depois priorizar os mesmos para a equipa técnica. Depois quando fui para Londres, mudei para uma área completamente diferente e era o meu objetivo que foi conhecer a área de negócio a sério. A máquina onde a Google ainda hoje vive que é a máquina do adwords. Tudo o que é anúncios, tudo o que é publicidade online. E comecei a trabalhar numa equipa como analista e dentro da equipa de branding era ajudar os maiores clientes da Google a posicionarem-se online usando as ferramentas de publicidade da Google. Não era tanto elas venderem mais. Por exemplo, eu trabalhava com marcas de automóvel onde o objetivo não era tanto vender mais. Claro que o final seria esse, mas o objetivo era muito mais tentar ajudar as marcas a passarem de empresas vistas como baratas e tentarem evoluir para empresas mais premium. Era um trabalho super interessante e se tivesse que voltar amanhã a fazer esse trabalho fazia, fácil, sem dúvida.

Depois sais da Google passados 5 anos, o que é que tu fizeste? O que é que foi o teu primeiro passo?

// André

Depois sais da Google passados 5 anos, o que é que tu fizeste? O que é que foi o teu primeiro passo?

// Daniel

O meu primeiro passo para lançar o que hoje é o Attentive na verdade começou ainda estava na Google.

// André

Em Dublin ou em Londres?

// Daniel

Em Londres.

// André

Ok. Já estavas em Londres…

// Daniel

Sim. Eu sabia mesmo que quando entrei na Google sabia que iria ficar lá algum tempo. Sempre foi o meu objetivo, aliás, desde que estava na faculdade aqui em Portugal de ir para fora. Sempre quis tirar o mestrado fora. Trabalhar dois/três anos, idealmente em dois países diferentes. Portanto, estudar num país e trabalhar noutro provavelmente na Europa porque era mais fácil em termos de vistos e tudo mais. Acaba por ser mais anos do que o que eu tinha planeado inicialmente mas acho que por uma boa razão. E portanto, o trabalho que nós fizemos foi talvez 6 meses antes de começar talvez até mais antes de sair da Google. Eu, o meu irmão (que também é meu sócio) e o Luís. Nós os três, como nós combinamos, entre nós, de que tínhamos um projeto que adorávamos e que criamos trabalhar a full-time e portanto pensámos numa data mais ou menos na nossa cabeça onde todos nós nos íamos despedir e começar a trabalhar full-time no Attentive. Isso foi em janeiro de 2015.

Passando agora para o projeto, o que é que é o Attentive? Consegues-nos explicar?

// André
Passando agora para o projeto, o que é que é o Attentive? Consegues-nos explicar?

// Daniel
Claro. O Attentive é uma ferramenta para empresas que funciona como um assistente de informação. As empresa têm imensa informação externa que é relevante para elas e nós conseguimos dar informação às empresas sobre os seus clientes, os seus concorrentes, os seus potenciais clientes. Vamos imaginar se eu tenho um potencial cliente que acabou de receber investimento, ou se eu tenho um cliente atual que lançou um novo produto, se calhar eu devia falar com ele ou devia ligar para tentar fazer um up sale ou simplesmente usar essa informação externa para manter a relação. O Attentive o que faz é integra com as ferramentas que a empresa já usa portanto não é um software que tem que instalar ou tem que configurar durante muitas horas.

// André
Portanto, sales force…

// Daniel
Exatamente. Nós neste momento temos quatro que são as nossas integrações principais que é o salesforce, hubspot, pipedrive e full contact. Ainda assim temos o API que dá para integrar com outros portanto se as empresas não usarem nenhuma dessas não há problema nenhum nós conseguimos. Temos clientes que usam outras ferramentas que nós integramos. A ideia é só, não precisam de nos dizer que empresas são relevantes nós sabemos porque nós vamos buscar aos próprios sistemas. O que o Attentive faz é só dar esses insights à pessoa certa na altura certa. Não é preciso dizer que aquele cliente ou potencial cliente já não é relevante, nós sabemos porque nós temos acesso ao CRM. Enquanto o CRM estiver bem atualizado, O Attentive sabe quais as empresas mais interessantes e que tipo de insights é que nós temos de encontrar externamente para depois dar o alerta à pessoa.

// André
Mas é feito automaticamente?

// Daniel
É tudo automaticamente, sim. Daí que o projeto dá para escalar exatamente por isso.

// André
Isso é bastante bom. O vosso target são empresas maiores ou estamos a falar também de startups mais pequenas ou todos os tamanhos?

// Daniel
Isso é um dos erros clássicos das startups é dizerem “toda a gente precisa de uma forma de gerir melhor a sua informação”. Foi um dos erros que nós cometemos. Aquilo que nós percebemos é que, mesmo que daqui a 10 anos nós tenhamos espaço para crescer a nível técnico para abranger outras áreas se nós começarmos a focar imenso qual é a área muito específica onde o Attentive consegue criar valor já, ponto número 1. Ponto número 2, que as empresas estão dispostas a pagar para ter esse valor acrescentado que nós percebemos que as equipas de vendas precisam disso. E assim vai afetar as vendas da própria empresa e portanto começámos a focar-nos aí. Em termos de setor, aquele que nós vimos era que as equipas têm uma equipa de vendas relativamente pequena portanto não são um colosso. 10/ 15 pessoas fazem talvez poucos milhões de faturação anual. É o ponto perfeito porque já usam ferramentas como o sales force, já têm os processos de vendas muito bem estruturados e portanto o Attentive consegue ligar-se a esses processos e conseguir gerar informação que é relevante para eles. Nós estávamos a começar por aí e aos poucos vamos alargando e abrangendo outras áreas.

// André
Dando uns passos atrás para perceber onde é que foi o vosso momento visionário. O vosso momento de super herói que conseguiu fazer o plano todo bem no momento certo. De onde é que vêm a ideia. Tu ainda estavas na Google, tanto o teu irmão como o Luís deviam estar a fazer os seus próprios trabalhos, quando é que foi aquele momento em que se acendeu a lâmpada e disseram “isto aqui faz falta.”

// Daniel
Houve duas abordagens que nós tivemos. Uma de produto muito específica e outra mais da visão de longo prazo. Portanto, a nível de produto específico eu quando estava a trabalhar na Google nós tínhamos o nosso CRM, o nosso equivalente ao sales force que era interno e eu tinha na altura 13/14 clientes com quem eu trabalhava com muita frequência e mesmo desses (é uma lista bastante pequena) muitas vezes eles mudavam o diretor de marketing e nós não sabíamos e tivemos várias reuniões estranhas ou constrangedoras onde estávamos a fazer um Pitch de um produto a dizer “têm que usar o nosso produto de vídeo por alguma coisa” e eles “não mudámos agora a nossa estratégia, lançámos um novo produto, o foco é outro agora”. Eu como analista fazia o trabalho de procurar manualmente alguma informação para contextualizar melhor aquele cliente quando nós íamos reunir com ele e percebi que não havia nenhuma ferramenta e que não fazia sentido nenhum ter uma pessoa constantemente à procura dessa informação e fomos falando com outras equipas e todos tinham exatamente o mesmo problema de que muitas empresas até tinham pessoas em que o trabalho deles é procurar essa informação.

Literalmente, “Googlar” essa informação.

// André
Hands on, Google Allerts para a frente…

// Daniel
Exatamente. E depois do Google Allerts metem no da empresa e têm 200 alertas ao dia e agora preciso de ir a esses 200 alertas e descobrir o que é que é relevante. Portanto, um trabalho extremamente manual e hoje em dia com as ferramentas que já existem com a tecnologia que está disponível é possível fazer um produto que resolva esse problema de forma automática. E é exatamente aí que se criou o Attentive. Essa era a parte de produto, a parte da visão de longo prazo a que nós debatemos imenso entre nós os três. Tínhamos conversas muito longas sobre isto era que nós pensarmos que daqui a 10 anos ou daqui a 20 anos se pensarmos nas tecnologias que estão a ser criadas hoje em dia como é que as pessoas vão consumir informação. O que é que vai ser diferente daqui a 10 anos em termos da forma de como nós conseguimos informação. Se calhar há 7 anos ninguém consumia notícias no Facebook… se calhar não tinha conta no Facebook… hoje em dia eu diria que a maioria das pessoas consome grande parte da sua informação via redes sociais.

// André
Sim, viu-se agora as estatísticas das eleições do Trump…

// Daniel
… e agora estamos a ver as consequências disso que também é interessante. Primeiro, isso aconteceu e agora estão a haver muitas consequências que ninguém se lembrou. Ninguém no mundo pensou nisso porque era impossível. Deverá ser preciso compreender o meu contexto, que informação é que me é útil agora e portanto que me consiga dar essa informação que é relevante a cada momento. Há medida que nos vamos integrando mais das ferramentas que usamos diariamente, há medida que toda a tecnologia que nós tocamos torna-se mais inteligente. Há aí uma oportunidade de nós darmos a informação certa há pessoa certa. Porque informação interessante já é infinita, aquela coisa de filtrar informação só para ser relevante já é infinita não vale a pena. Eu acho que o próximo nível é qual é que é a informação que é relevante e é relevante nesse exato momento e o Attentive está a começar a resolver isso para as equipas de vendas. Qual a informação dos meus clientes que é relevante agora.

// André
Portanto, recebes uma notificação a dizer “olha, acabaram de me mudar de diretor de marketing. Isto é importante saber, vamos mandar um email de introdução a dizer que temos vindo a trabalhar convosco não me conhecem mas aqui sou o Daniel, trabalho na Attentive, temos vindo a fazer um software,…” E obtém-se respostas estilo “Muito obrigado pelo briefing, acabei e chegar ao cargo e assim estamos contextualizados.

Isso é bom porque assim passa uma boa primeiro impressão, tipo – estas pessoas sabem do que estão a falar.

// Daniel
Nós chamamos a isso de actionable intelligence. Teres essa “intelligence” – não há nenhuma tradução para português – que te permita tomar uma ação. Não é um “nice to have”. É informação que pegas nem e consegues fazer algo: ligar a um cliente, marcar uma reunião, colocar uma nota para saber estas a criar uma nova oportunidade para avançar esse cliente no pipeline… É tentar ter um impacto direto no teu funil de vendas.

// André
Há uma possibilidade de percebermos com é que temos de lidar? Não sendo assim 20 passos atrás. São 3 ou 4, mas já não é preciso fazer um grande trabalho.

// Daniel
Esse contexto pode fazer total diferença. Hoje em dia estamos numa era (muito especificamente para a área de sales online) da automatização.

E muito fácil conseguirmos 10000 emails, enviar a dizer “Olá, eu sou o Daniel, quero-vos vender o produto” e toma lá 10000 mil emails, com uma open rate de 0,005 – ótimo, porque esse 0,005 pode ser que á converter. É bastante melhor enviares 10, sendo contextuais. Se algo acontece numa empresa, aquela é a melhor altura de falarem.

É uma maneira diferente de usar essa informação.

Também já vi que tiveram no Lisbon Challenge. Queres falar um pouco da experiência?

// André
Também já vi que tiveram no Lisbon Challenge. Queres falar um pouco da experiência?

// Daniel
O programa que fizemos terminou há um ano atrás. Começou em Setembro de 2015, e acabou em Dezembro de 2015. Na altura a grande utilidade era o receber feedback. Precisávamos muito que as pessoas dissessem muito mal da interface, da nossa abordagem para nós conseguirmos ir melhorando mais depressa. E acho que é exactamente o grande foco para uma aceleradora. É de sermos rápidos a evoluir, porque ali estávamos a cada dia a ter 10/15 reuniões, não só com portugueses, como de pessoas de fora.

E por isso, nós evoluímos o projecto massivamente, portanto desde contactos com investidores, com potenciais clientes e parceiros, tudo. Essa foi uma evolução muito importante e, depois conseguimos investimento da Caixa Capital ao termos ganho o evento final, mas mesmo independentemente de tudo e de termos ganho, já tínhamos tido imenso valor pelo programa em si.

// André
Só pelo programa, reuniões de mentoria?

// Daniel
Tudo. Contactos que ainda hoje são importantes para nós.

// André
Começaram logo a trabalhar? Tiveram a ideia e puseram logo as mãos na prática? Como é que foi passar do papel para a prática?

// Daniel
Quando um projecto novo tem uma técnica de base forte(No nosso caso somos 3 , 2 da área técnica e eu da área da Gestão) o que acontece é que há uma enorme vontade de começar logo a programar. É fácil, porque somos 3, eu posso ter umas ideias, mas eles podem começar a programar naquele exacto momento. E acho que foi um erro. É fácil por uma equipa técnica a programar antes de falar com as pessoas e perceber o mercado. Nós fomos fazendo as duas. Nunca fizemos aquela coisa de nos fecharmos durante 3 meses e só programar mas era muito mais fácil se nós tivéssemos investido 3 semanas a 1 mês a falar com potenciais clientes.

// André
Perceber o product market fit?

// Daniel
Fingir que tínhamos um produto finalizado, no sentido de criar uma página que funcione mais ou menos e que no back end é tudo manual não havendo nenhum produto técnico ainda. Mas obviamente que nós gostamos de construir e portanto fazemos um balanço. Quando falo com as pessoas que estão a começar projectos agora, tento-lhes dar essa perspectiva que, recolher informação do mercado é muito mais importante do que programar. Porque essa é que é a parte difícil.

Programar é relativamente fácil.

// André
Pois, para quem sabe já lá está.

// Daniel
Felizmente, tanto o pedro como o Luís são programadores muito experientes, portanto eles conseguiram escalar um projecto muito rápido – portanto esse não era o problema. O problema é perceber exactamente o que construir.

// André
Mais uma vez o impacto da aceleradora. Desde ganhar métricas, e quanto mais coisas foste fazendo, mais informações tinhas e poderias iterar e fazer um melhor produto possível.

// Daniel
Exactamente. Daí ser a grande diferença. Obviamente que as pessoas conseguem ter esse feedback sem passar por uma aceleradora, mas é muito mais difícil. Há uma autoestrada direta onde se anda muito mais depressa do que numa nacional. Por isso se consegues ter a opção de a usar – usa.

Agora passando para as experiências passadas. Se possível falhadas.

// André
Agora passando para as experiências passadas. Se possível falhadas.

// Daniel
Uma que foi particularmente dura, foi quando eu estava como Vice Presidente da Associação de Estudantes (no Porto) e depois de uma nova lista em que eu era presidente. Lembro-me que eu sabia que a nível financeiro estava mal. Houve um grande corte nos financiamentos das Associações de Estudantes.

Eu tinha esse conhecimento por ter sido Vice Presidente. Mas eu sabia que tínhamos algumas centenas no banco, sem dívidas. Agora temos de pensar como vamos dar a volta a isto. Com 400€ para um mandato inteiro é impensável. Mas tudo bem, isso é fácil de resolver.

E lembro-me de descer as escadas, depois da tomada de posse, para a Associação de Estudantes e fui abrir cartas. A primeira que abri era um processo de tribunal da Câmara em que eles nos estavam a processar por dívidas com mais de 8 anos. Porquê?

Estávamos ali em 2008 e houve aquele aperto tudo ao mesmo tempo, e toda a gente ficou sem dinheiro. O IPDJ cortou o financiamento. Toda a gente a quem a Associação devia dinheiro: gráficas, multas de estacionamento, telecomunicações – caíram todas ao mesmo tempo. E foi no meu mandato e nós tínhamos milhares de euros em dívida.

Quando pensava que tínhamos tudo minimamente resolvido, caiu tudo e foi dificílimo. Não estávamos, de todo, capacitados. Foi um ano de imensa luta para tentar dar a volta aquela situação.

Experiências passadas. Se possível, ganhadas.

// André
Experiências passadas. Se possível, ganhadas.

// Daniel

Eu acho que o momento mais importante foi o momento onde nós tivemos o primeiro investimento que recebemos no final do Lisbon Challenge (da Caixa Capital). Éramos 3 pessoas, sem empresa criada. Tínhamos uma ideia, e nem tínhamos clientes. Tínhamos código, havia alguma coisa. Mas não havia um negócio. E ter uma empresa de capital de risco como a Caixa Capital a acreditar em nós. Definitivamente a aposta deles foi na equipa. Naturalmente acreditavam no projecto e na visão, mas mostraram que acreditaram em nós para executar essa visão. E neste último ano temos tentado executar nessa visão e mostrar que eles fizeram bem em apostar em nós.

// André
Nem sempre apostar no produto é a melhor ideia, quando se vê potencial na pessoa. Pode não ser aquele o serviço ou produto para aquela pessoa. Tu sentes que apostaram mais na equipa ou no produto em si?

// Daniel
Na altura, foi 100% na equipa. Diz muito sobre uma equipa a abordagem que estão a ter relativamente ao produto. Quando dizem que podem ser rejeitados por causa do projecto em si, podem não estar a gostar da abordagem que a equipa fez ao produto. Vou dar um exemplo – na Techstars, o método de seleção deles é: Equipa, Equipa, Equipa, Produto, Progresso, Ideia. Claramente a Equipa é o mais importante.

O produto é o que estás a construir. O progresso é a tração e, por último, têm a ideia. Quase de certeza que nos 3 meses que passam lá a ideia não é, de todo, a mesma. O mais relevante é uma equipa que possa executar e que tenha experiência sobre determinado mercado.

Eu acredito cegamente nisso. Até a uma Series A estás a apostar totalmente numa visão deles. Houve um investidor que disse a uma startup que se “queixava” de lhes estarem constantemente a pedir métricas sobre métricas, que quando um investidor, numa fase muito inicial, pede métricas, não acredita neles. Precisa de provas. E isso significa que não estão interessados. Nem eles próprios se aperceberam disso.

No início esquece as métricas. Nós, com Caixa Capital e com outros investidores, obviamente que mostramos as métricas, mas era mais importante acreditarem em nós.

As métricas vêm agora. Isso funciona na fase muito inicial da empresa onde as métricas não são o mais importante, porque ainda não há muitas e são totalmente enviesadas. Mesmo fechando os primeiros clientes não é suficiente. Se calhar são os únicos do mundo que resolvem o problema que aquela pessoa tem. Daí a ter milhares de clientes a pagar ainda vai muito.

// André
Agora vamos para as tuas super características. As características que tornam de ti um super herói. Por tanto, qual é teu maior super poder na tua opinião? Aquilo que seja a tua maior força em termos pessoais mas que tu consigas aplicar à área do negócio.

// Daniel
Eu diria que é a perceção de tentar ser melhor na forma como aprendo. Por tanto. Não sou de longe uma pessoa que aprende depressa, nunca fui grande aluno. Mas a questão de tentar melhorar a forma como aprendo é que é mais importante. Então estou sempre a pensar sobre isso e a ler sobre isso também. De como é que consigo adquirir mais conhecimento mais depressa. Para poder tomar melhores decisões. E acho que para uma pessoa que está à frente de um projeto é a coisa mais importante. Porque nós nunca temos informação suficiente para liderarmos um projeto.

// André
Sim, o Warren Buffet com os seus 80s ainda lê 500 páginas por dia.

// Daniel
E não só nesse nível. Estou a tentar arranjar outras formas. Ler por acaso é uma delas gosto imenso de ler. Mas há outras. E acho que a parte mais importante é estar consciente de que temos de melhorar isso. Conheço pessoas que dizem: “eu leio o livro mas esqueço-me”. E eu disse: “Está bem, mas toda a gente se esquece, agora tens de ver documentários, ler outros livros, falar com pessoas, depois de reveres as mesma coisa 20x é que ela fica”. É só a questão de nós pensarmos porque é que não estamos a reter essa informação. Eu não sou melhor nem pior.

// André
Mas se calhar também não é do interesse deles, não é verdade?

// Daniel

Exatamente. Mas isso não é problema nenhum. Isso só não é desculpa: “ah a minha memória não retém nada”. Isso não é assim. Nós conseguimos reter sempre aquilo que precisamos.

// André
Agora passando qual é a tua maior kryptonite? Passando aqui para a questão, qual é a tua maior fraqueza pessoal que depois de aplica à área do negócio? E por favor não digas: “sou muito teimoso”

// Daniel
Eu acho que há uma questão que vai ser fundamental nas próximas décadas que eu ainda tenho de trabalhar. Que é a questão do “Deep Work”. Fazer aquele trabalho em que estamos constantemente naquele fluxo. Completamente focados a fazer uma tarefa durante 1h/2h/3h, estamos a produzir trabalho que é muito mais difícil do que uma máquina de reproduzir. Quando nós estamos a desenvolver uma estratégia e nós conseguimos estar 3h sem qualquer tipo de interrupção, telefones, Facebook e estarmos completamente focados, nós conseguimos produzir um tipo de trabalho com um nível de criatividade e profundidade que é fabuloso. E que todos nós, pelo menos falo por mim, eu consigo fazer “Deep Work” durante 20mins mas isso tem de ser aumentado para 2h.

// André
Consegues fazer isso através da técnica “Pomodoro”.

// Daniel
É um excelente exemplo de uma técnica que existe para tentar focar com o objetivo de produzir esses momentos ao longo do dia de uma produção criativa que é muito acima daquela que nós conseguimos produzir. Porque quase tudo o resto que nós fazemos e mesmo aquilo que faço no meu dia-a-dia, é quase tudo automatizável. Os emails que mando, reuniões que marco, esse tipo de coisas, isso não gasta processamento de cérbero praticamente. Agora a parte de posicionamento e estratégia para a minha empresa não é automatizável. Depende de nós equipa como conseguimos estar de forma síncrona a produzir, a pensar sobre esse problema porque vamos ter abordagens diferentes e isso é extremamente difícil ainda é algo que eu estou a trabalhar bastante para tentar aumentar isso.

// André
Diz-me uma coisa quantas pessoas é que a Attentive já tem?

// Daniel
5 pessoas.

// André
A contar com os a contar com os 3 fundadores?

// Daniel
Sim, exatamente.

// André
Passando aqui para uma última super característica. Qual é o teu melhor hábito. Aquilo que tu achas que fazes regularmente pode ser uma tentativa de “Deep Work”, pode ser uma tentativa de constante aprendizagem, mas qual é aquele hábito que tu tens que dizes: ok, isto aqui ajuda-me e eu sei que isto é um hábito que me facilita a vida.

// Daniel
Ter uma lista de tarefas. Uma “To do List”. Vou a criando ao longo do dia, à medida que me lembro. Se sair daqui e me lembrar que preciso de fazer alguma coisa escrevo. No Trello ou em papel. E revejo normalmente, antes de começar o trabalho. Ou seja, no próprio dia vejo a lista de tarefas que tenho, prioritiso aquelas que são fundamentais vejo mais ou menos quantas horas é que me vão demorar. Isso baseado nas reuniões que tenho nesse dia quando é que vou conseguir fazer. E no final do dia consigo saber se foi um dia produtivo ou não.

Qual foi o melhor conselho que alguma vez recebeste?

// André
Qual foi o melhor conselho que alguma vez recebeste?

// Daniel
Um que me lembrei quando me fizeste a pergunta foi, pode ser vários alias… Posso dar dois?

// André
Podes, estás à vontade!

// Daniel
Um foi o meu pai que me disse e lembro-me muito bem. Eu devia ter 7 ou 8 anos. Ele disse: não importa o que sejas, importa que sejas o melhor a fazer aquilo”. Portanto, não importa se queres ser, qualquer função no mundo mas tens é que tentar melhorar e ser o melhor naquilo que fazes. Por tanto o problema nunca é a função é… Uma questão de evolução. Eu acho que naquela altura o que eu estava a pensar e o que fez o “trigger”, não é tanto a questão de trabalho mas sim a evolução. De tu teres sempre de pensar em tudo o que fazes, seja como estudas seja na tua função ou no dia-a-dia. Pensares sempre, o que podes fazer para melhorar. E não caíres daquela coisa da “rat race”. Que é tu fazeres a mesma coisa todos os dias e estas ali daquela lenga lenga de trabalho das 9h às 5h vais para casa e fazes o mesmo trabalho que fazias à 10 anos. Quando dizem que têm 10anos de experiência, não, tens é um ano de experiência repetido 10 vezes. É não entrares nisso. Estás a perceber?

// André
Essa expressão é bastante importante. Portanto, Daniel Araújo, Super Herói, Attentive. Mas por detrás de cada Super Herói há um Super Humano. Por tanto Daniel, diz-me uma coisa. Tu gostas de desporto?

// Daniel
Sim, gosto de desporto.

// André
Qual é que é o teu desporto preferido?

// Daniel
Infelizmente tenho de dizer que é Football.

// André
Club preferido?

// Daniel
Braga.

// André
Opá, cá está. Surpreendente. Se não estiveres a trabalhar o que gostas de fazer num domingo à tarde?

// Daniel
Ler.

// André
Algum escritor preferido?

// Daniel
Eu vario imenso nos estilo de leitura. Preocupo-me mudar. Leio, livros de gestão, filosofia, romances, biografias. Tento mudar bastante. Se li 3 livros de gestão vou tentar variar a seguir.

// André
Prato preferido?

// Daniel
Como sou um homem de Braga, Cabidela.

// André
Diz-me uma coisa, alguma superstição que tenhas?

// Daniel
Não, zero.

// André
Por fim, só para fazer uma brincadeirazinha. Qual foi o último filme que viste?

// Daniel
Deixa cá ver, último filme… Ah, foi o Dr.Strange.

// André
O que é que achaste?

// Daniel
Gostei bastante. Queria ver, IMax. Tinha alguma curiosidade em ver e por acaso acho que está bastante bem feito. O ângulo que eles tomaram também gostei. Não sei se foi forçado ou não mas eles tentaram transformar o Dr.Estranho que era muito magia pura tentaram dar um anglo físico. tentaram explicar quase tudo o que havia, a forma como ele acumulava energia e não sei quê tudo com uma explicação física. E eu gostei disso. Lá está, não estou a dizer que aquilo é possível mas gostei do ângulo de falar do multiverso, são conceitos que existem na física atual.

// André
Por fim, mesmo a última questão do super humano. Qual é o teu artista preferido? Pode ser música, ator, escritor, etc

// Daniel
Deixa cá ver… Tantos… Agora é difícil. Louis CK, comédia. Acho que vou ficar com ele. Acho que ele merece (risos). Acho que é um excelente comediante pela forma como ele aborda qualquer tópico.

Uma expressão que tu tenhas, uma frase ou conselho que tenhas e que querias dar aos nossos ouvintes

// André
Sim, sim. Ele também tem uma forma de ver as coisas muito específica. Pois bem, agora para terminar também a nossa entrevista. Temos aqui duas questões. Que não são bem duas questões é mais para tu elaborarem e falares à vontade. Por tanto, tu conheces aquele famoso momento do Uncle Ben: “with great power comes great responsibility”. Uma expressão que tu tenhas, uma frase ou conselho que tenhas e que querias dar aos nossos ouvintes.

// Daniel
Eu acho que deviam pensar bem naquela questão que disse à pouco, se querem repetir a mesma função, o mesmo trabalho e ter 1 ano de experiência repetido 10 vezes ou querem 3 anos de experiência. E é um exercício que eu faço desde o secundário que é comparar o dia de hoje com o dia de há um ano atrás e pensar o quanto eu evolui. Não quer dizer que esteja à frente de ninguém mas é uma questão de: se eu próprio sinto que evolui ou áreas em que eu melhorei bastante. Quando nós estamos a fazer exatamente a mesma coisa há 2/3 anos dificilmente nós estamos a evoluir. Ou pelo menos estamos a evoluir a uma taxa de 2% onde se estivéssemos a começar uma coisa do zero estaríamos a evoluir 200%. E isso pode ser na forma como consomes informação, como é que tu pensas nas tarefas que fazes diariamente, como é que tu as podes fazer melhor. Seja na forma como estudas seja na forma como trabalhas.

// André
Último ponto da entrevista. Só por piada, eu sei que isto vai sair completamente desbocado mas eu quero que isto daqui a 5 anos poder mandar uma mensagem e dizer: Ah! Enganaste-te. O que é que vês a acontecer daqui a 5 anos? Attentive, a ti, a Portugal, Américas. Ou seja, daqui a 5 anos o que é que achas que vai estar a acontecer?

// Daniel
Por tanto estamos em 2016, estamos a falar de 2021. Eu acho que Portugal vai estar numa posição bastante interessante, pela positiva. Do ponto de vista Macro acho que se virmos as várias variáveis que estamos a começar estamos a tocar em quase todas que são relevantes. E isso é totalmente independente de um governo ou de uma pessoa que está a fazer que isso é que é que era impensável. Ou seja uma comunidade. É tudo. É o foco nas indústrias certas, é o foco no talento certo, ou na evolução do próprio talento. Acho que o caminho vai ser bem feito. Do nosso lado não faço ideia se vou estar em Portugal ou se vou estar fora. Eu vou estar onde achar que poderei estar a contribuir mais. Acho que ainda vou estar ligado ao Attentive, sem dúvida. Daqui a 5 anos não faço a minima ideia do que é que o Attentive vais estar a fazer, nem como nem onde. Mas sinto que é um projeto que têm tanto por onde crescer a nível da marca e a nível técnico daquilo que nós queremos fazer que eu sinto que sem dúvida que há mais do que trabalho para estar daqui a 5 ou talvez até 10.

// André
Entrevista em si está acabada. Obrigado Daniel!

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