Inês, queres fazer agora um Pitch sobre ti?

// André

Inês, queres fazer agora um pitch sobre ti?

// Inês

Claro!

Antes de mais, obrigada pelo convite. É um prazer estar aqui e poder partilhar a minha experiência e o que tenho feito ao longo destes últimos anos.  

Portanto, o meu nome é Inês, tenho 27 anos e sou do Porto. Trabalho atualmente como Head of Operation and Growth na Ripe Productions, na área fashion, com marcas de luxo na área de customização e e-commerceAntes disso, estava a trabalhar como Growth Lead na TopDox – uma startup na área do mobile, produtividade – e, anteriormente a isso, antes da minha passagem para o mundo das startups, estava a trabalhar muito na área da promoção do empreendedorismo.

Por um lado, [trabahava na área do empreendedorismo] com o programa Startup Pirates – que é um programa de uma semana que ajuda pessoas com ideias de negócio a desenvolver essas ideias. Fizemos o programa já em mais de 40 cidades em todo o mundo – desde o Paquistão, India, Peru, Colômbia, Brasil, Estados Unidos, obviamente, a Europa e Norte de África. Conseguimos, de uma forma muito rápida e de Portugal para o Mundo, escalar um programa com esta dimensão.

Paralelamente a isso, também acabei por trabalhar muito com grandes empresas, fundações, câmaras municipais e outras instituições para promover o empreendedorismo, com programas de curta e longa duração. Portanto, tenho uma experiência muito hands-on de empreendedorismo, de fazer e de acompanhar startups nas mais diversas fases.

Muito bem. Fala-nos um bocadinho mais sobre a Startup Pirates.

// André

Muito bem.

Fala-nos um bocadinho mais sobre a Startup Pirates. Disseste-nos que é um programa de uma semana. Portanto é uma “mini” aceleradora?

// Inês

Nós somos uma “pré-aceleradora”.

Quando nós criamos a Startup Pirates, em 2011, não lhe chamavamos “pré-aceleradora”. Entretanto, fomos percebendo que já havia um conjunto de aceleradores, um conjunto de incubadoras, e nós estávamos na fase anterior a tudo isto. Estávamos na fase em que: a pessoa tem uma ideia de negócio, tem vontade de desenvolver os seus projetos, tem vontade de se juntar a outros que queiram desenvolver projetos. E nós juntamo-los num programa de uma semana (mais ou menos 30 pessoas, com os mais diversos backgrounds e idades), e desenvolviam ideias de negócio, com ajuda de mentores, workshops, espaço de trabalho. No final, era selecionado um vencedor que depois, normalmente, tem acesso a incubação, aceleração e outro tipo de prémios.

Como é que começou a tua aventura pelo empreendedorismo?

// André

Ah, muito bem, muito bem! E, olha, diz-me uma coisa: como é que começou a tua aventura pelo empreendedorismo? Já tive oportunidade de averiguar, através das tuas redes sociais, que organizaste os primeiros TEDx no Porto, não é verdade?

// Inês

Eu organizei o primeiro TEDxYouth@Porto, que é diferente do TEDxOporto, que, hoje em dia, é um evento gigantesco.

Eu organizei o TEDxYouth@Porto em 2010, porque fui desafiada, na altura, por um grande amigo meu o Hugo – na altura, nem nos conhecíamos assim tão bem quanto isso ou quase nada mesmo. Nesse mesmo ano, fiz uma escola de verão na “London School Of Economics” na área do empreendedorismo. Pode-se dizer que 2010 foi o primeiro ano em que eu comecei a dar os meus primeiros passos no empreendedorismo.

Obviamente que, em 2010, também não havia quase nada, não é? Portanto, os primeiros passos significa que eu fui a praticamente todos os eventos que aconteceram em Portugal na área – não eram muitos, portanto não quer dizer que eu andei a ir todos os dias a eventos.

Mas a verdade é que, em 2010, tive a sorte de apanhar esta primeira vaga de empreendedorismo, perceber que era uma coisa em que eu gostava de trabalhar, com a qual eu me identificava. O mindset, a forma de estar, era algo com o qual eu me identificava. E, a partir daí, comecei a interessar-me pela área, sendo que depois, em 2011, criei a Startup Pirates.

Essencialmente, a Startup Pirates nasce de nós percebermos que as Universidades e a maior parte das organizações, que, hoje em dia, estão muito ligadas à área do empreendedorismo, na altura estavam completamente desligadas desta realidade. Nós compreendemos que havia aqui uma oportunidade, não só de fazer isto em Portugal, mas no mundo todo. Ajudar pessoas que estão, muitas vezes, a sair das universidades, ou pouco depois, e dar-lhes aqueles conselhos que elas realmente precisam no início. Algo que não era feito sequer pelas universidades ou mesmo outro tipo de organizações que, na altura, já apoiavam o empreendedorismo – mas era um empreendedorismo que posso chamar muito old school e nós queríamos uma coisa nova e diferente.

// André

Só por curiosidade, e para nos contextualizarmos, o teu primeiro contacto com a palavra empreendedorismo mais a sério, portanto numa vertente mais hands on, foi com o TEDx?

// Inês

Eu não consigo identificar especificar qual foi o ano do contacto.

Eu sei que, em 2010, eu estava numa júnior empresa na área da consultoria (a FEP Junior Consulting) e foi um processo que eu adorei. Foram 3 anos muito intensos que me fizeram crescer imenso, mas depois percebi que precisava de algo diferente. Eu gostava muito de tecnologia também, gostava de aliar as minhas competências de negócio, que, na altura, não eram de empreendedorismo, eram mais de gestão e à parte tecnológica.

Começaram a surgir um conjunto de oportunidades, comecei a conhecer um conjunto de pessoas que também estavam a dar os primeiros passos nesta área e foi aí que comecei e, pronto, nunca mais parei.

Sentes que a tua experiência, tanto na Startup X, na Startup Pirates, na Júnior Empresa e nas organizações de eventos te deram as ferramentas necessárias para saltares de gestão para growth hacking/marketing?

// André

Muito bem. Isso também é necessário.

Agora diz-me uma coisa: sentes que a tua experiência, tanto na Startup X, na Startup Pirates, na Júnior Empresa e nas organizações de eventos te deram as ferramentas necessárias para saltares de gestão para growth hacking/marketing? Queres falar um bocadinho disso?

// Inês

Sim, claro!

Portanto, depois da experiência com a Startup Pirates, foram 4 anos anos a trabalhar na área do empreendedorismo, mas também foram 4 anos a tentar perceber como chegar a mais países, perceber como conseguimos atrair mais organizadores, mais participantes. Eu não estava a fazer Growth na Startup Pirates, mas havia ali competências que eu fui desenvolvendo.

Paralelamente a isso, recebi um e-mail a convidarem-me para trabalhar nesta área [do empreendedorismo], uma área que eu já gostava, com liberdade de testar coisas novas, liberdade de aprender e com uma empresa e empreendedores que eu já gostava. E, portanto, surge esse salto e a verdade é que estive na TopDox 7 meses.

Eu acredito mesmo que nós evoluímos imenso como empresa, temos um conhecimento muito maior sobre como é que nós funcionamos, como é que trabalhamos e aprendemos imenso naquele processo. Trabalhámos muito na aquisição, na retenção, diferentes estratégias, diferentes tentativas. Muita tentativa e erro. Perceber o que é que funcionava e o que é que não funcionava. Muito analytics e a verdade é que foi um trabalho que me deu um gozo imenso e que acho que também teve bons resultados para a empresa.

(...) De Startup X para a Startup Pirates. Sentiste que havia a falta disso. Havia a necessidade de criar uma pré-aceleradora (..)?

// André

Dando uns passos atrás, falámos aqui sobre a Startup X.  

Só para percebermos, os nossos ouvintes e, espero eu, alguns seguidores, de onde é que veio uma ideia de criar uma associação destas? De Startup X para a Startup Pirates? Sentiste que havia a falta disso? Havia a necessidade de criar uma pré-aceleradora, que ainda não tinha esse nome? Provavelmente porque esse conceito ainda não tinha sido desenvolvido, mas de onde é que saiu esse salto? Porque normalmente as pessoas sentem que, quando tu te viras para o empreendorismo, estás a cometer uma loucura, não é verdade?  

// Inês

Eu criei a Startup Pirates com 4 pessoas como eu: o Rafael, a Daniela, a Ariana e o João. Pessoas muito diferentes, com experiências diferentes também, mas com uma vontade comum de fazermos alguma coisa interessante, fazer alguma coisa que realmente tivesse impacto.

Quando eu digo impacto, muitas vezes as pessoas acham que impacto é uma palavra um bocado vaga. “O que é que é isso impacto?”

O que nós queríamos fazer era ajudar pessoas que tinham ideias de negócio a criar os seus próprios projectos. Nós queríamos em parte democratizar o acesso ao conhecimento para criação de projetos e desmistificar também questões como “Ah, mas como é que eu dou o meu primeiro passo? É difícil? Não é difícil?”.  

Uma coisa que ajudou, e que eu acho que a maior parte dos projetos acabam assim, é que uma pessoa não acorda um dia de manhã e diz: “eu vou criar uma startup“. A pessoa, normalmente, acorda de manhã e diz: “eu quero perceber como posso resolver este problema”. E foi o que nós fizemos.

Nós nunca dissemos: “vamos criar uma startup, vamos criar uma associação, vamos criar…” O que nós dissemos foi “temos aqui uma oportunidade tão engraçada de fazermos uma coisa que realmente faça a diferença” e começamos a ter umas reuniões, na altura, no McDonald’s do campus de S. João, e começamos a falar. Mas o que é que queremos fazer? É um programa? Que espectro vai ter este programa? Vamos falar com outros empreendedores para nos ajudarem, outros empreendedores que já fizeram [algo deste género] para nos ajudarem com isto. Quem são as pessoas que queremos convidar? Como é que vamos implementar isto com o mínimo esforço possível?

Então começámos a fazer o nosso primeiro programa em setembro de 2011. Era esse o objetivo, fazer o primeiro programa em 2011 e as coisas começaram a avançar. Obviamente, já tínhamos a ambição de fazer isto noutros países e noutras cidades e, portanto, as coisas começaram a avançar devagar, mas uma coisa que muitas vezes acontece para quem começa a criar projectos é: as pessoas ficam  overwhelmed com as ideias megalómanas que têm.

Se o Mark Zuckerberg, quando criou o Facebook achasse que ia criar uma plataforma com mais de mil milhões de pessoas ativas por mês, eu acho que ele também tinha ficado um bocado overwhelmed. Ele começou com um diretório, com uma brincadeira lá no campus da  Universidade de Harvard.

Portanto, eu acho que é um bocadinho assim. Eu acho que as pessoas antes de pensar “vou criar uma startup“, devem encontrar qual é o problema que efetivamente querem resolver.  Há muitos problemas que valem a pena resolver no mundo, alguns de maior dimensão.

Em 2013, na Singularity University, estive num programa de formação de 2 meses e meio para percebermos como é que a tecnologia pode resolver os maiores problemas do mundo. Há problemas na área da saúde, alimentação, energia, privacidade, etc., que são problemas gigantescos que valem a pena resolver. Há muita gente a trabalhar neles, mas há espaço para mais pessoas trabalharem neles. Portanto, há esses problemas que podem ser resolvidos e depois também há outros problemas do quotidiano. Uma pessoa que se depara com um problema que não tem uma solução e que pode tentar resolver esse problema.

Foi isso que nos aconteceu em 2011, comigo e com os meus 4 co-fundadores. Nós encontramos um problema que não havia uma solução clara para o mesmo e criámos um programa à nossa imagem, um programa simples, diferente. Nós queríamos cortar muito com aquilo que havia na área do empreendedorismo da altura, o old school entrepreneurship e quisemos perceber como é que nós podiamos, efetivamente, fazer um bocado de diferença. E foi esse o primeiro passo que demos.

Nunca pensamos: “vamos estar em 40 cidades”.  Aconteceu felizmente, mas é um passo de cada vez.

E experiências "falhadas", o que há?

// André

Bem, agora é um novo segmento, que é, como eu gosto de lhe chamar, “experiências passadas, possíveis falhadas”, ao que tu respondes uma experiência que tenha sido o máximo de crash and burn possível. Aquilo mesmo que tu dizes: “epá, nunca mais”; ou: “aprendi tanto que consigo dominar isto para a próxima”.

// Inês

Olha, a organização do TEDxYouth@Porto, em 2010, foi uma experiência muito complicada.

Foi o primeiro grande evento que organizei. Primeiro não, segundo, provavelmente, que eu organizei sem experiência nenhuma.

O grande erro que cometemos na altura foi a agenda, muito sobrecarregada, sem espaço de manobra para caso algum orador demorasse mais tempo. A verdade é que o evento era para terminar às 7 da tarde e terminou às 10 da noite.

Eu lembro-me que no, dia seguinte, acordei e não me levantei o dia todo. Era tanta a atenção em mim, tanto sofrimento… Ou seja, houve muito boa vontade da minha parte e de  toda a gente de fazer o evento acontecer, houve muito interesse, mas a verdade é que aquele dia me tirou anos de vida. Felizmente eu tenho uma coisa boa. Eu esqueço-me dos sofrimentos porque, senão, eu já não fazia nada.

Mas pronto, isso foi uma experiência que… eu não lhe chamaria falhada, mas foi uma experiência muito difícil, de muita aprendizagem também, e, obviamente, que houve erros ali que nunca mais cometi.

E agora experiências ganhas?

// André

E agora experiências ganhas?  Um major win na tua vida, aquele momento que tu dás um high five a ti mesma e que dizes: “grande Inês, obrigado”.

// Inês

Eu não tenho muitos momentos de: “grande Inês, obrigada”.

Nós, no Startup Pirates, até dizíamos que devíamos celebrar um bocadinho mais as nossas pequenas vitórias, porque não éramos pessoas de o fazer. Mas, obviamente, o grande orgulho de criação da minha vida foi o Startup Pirates.

Já não estou ligada, é verdade, e há muita gente que acha isto estranhíssimo (porque eu saí de repente), mas foi por ter tido a necessidade de fazer coisas diferentes e aprender coisas diferentes.

A verdade é que essa foi a minha grande experiência, foi a grande construção na minha vida. Até ao momento, foi esse projecto. Espero que, no futuro, haja outros, não é? Mas eu sinto muito orgulho no trabalho que nós conseguimos. Houve coisas boas, coisas más, coisas que fazia diferente, sem dúvida, mas acho que o que o nós alcançamos em 4  anos é muito interessante.

// André

Sim, é formidável!

Eu próprio, na altura, ainda nem estava muito dentro deste mundo e já tinha ouvido falar da Startup Pirates, inclusive por causa do Davis Gouveia, que será um dos próximos convidados.

A Pirates foi dos primeiros contactos que tive com a palavra startup. Isto pode ser idiota, mas pronto.

Eu acabei de me licenciar e foi mesmo “ah a Startup Pirate, vou investigar” e achei aquilo um projecto tão interessante. Quando eu percebia que não só era português, como também era de alguém novo… És 5 anos mais velha do que eu. És estupidamente nova ainda, não é? Ainda temos muito para cavalgar aqui pela terra (se bem que tu, aparentemente, já perdeste uns quantos anos no TEDx).

Portanto, eu sempre achei isso bastante louvável e tenho que te dar os parabéns pelo fantástico trabalho que eu acho que ainda estão a fazer, obviamente. Acho que, tu não estando lá, eles ainda continuam a fazer um fantástico trabalho.

Qual é a tua maior força enquanto empreendedora?

// André

Passando para um próximo segmento, que é “as super características“. Vamos começar pelo super poder. Qual é a tua maior força enquanto empreendedora?

// Inês

Eu acho que tenho uma boa capacidade de ligar os pontos, connecting the dots. Eu sou daquelas pessoas que, por feitio ou por defeito, quando me estão a falar de alguma coisa, o meu cérebro começa a ligar, imediatamente, as coisas.

Estamos a ter esta conversa e, imediatamente, na minha cabeça, estou a ver outras oportunidades, eventualmente de colaboração, pessoas que eu acho que possam ser interessantes para entrevistares. Às vezes, também não dá em nada, não é?

Eu gosto muito de ter reuniões exploratórias, [do género] “ok, expliquem-me o que é que vocês fazem”. E, muitas vezes, se forem áreas próximas da minha consigo ajudar, porque faço esta ligação de ideias diferentes. Pessoas diferentes, projetos diferentes, ideias diferentes.

Eu acho que as minhas melhores ideias também surgem, muitas vezes, de ver uma coisa aqui, outra acolá e, de repente, juntas fazem sentido.

Portanto, eu acho que é esse o meu maior “super poder”, se é que podemos chamar assim.

// André

É interessante, porque identifico-me com essas sinapses.

Eu gosto muito das questões das conversas e de como estou sempre a apanhar conteúdo, mesmo que não dê jeito às pessoas nesse preciso momento, podes sempre lembrar-te delas e, daqui a um ano, dizeres: “olha, eu falei com uma pessoa há um ano atrás, não me lembro bem quem era, mas dá-me uns minutos e eu encontro-a e pode ser que te dê jeito”. Acho isso bastante interessante.

E qual é que é a tua maior fraqueza?

// André

E qual é que é a tua maior fraqueza?

// Inês

Eu não sou uma pessoa extremamente focada. Sou uma pessoa que se aborrece com alguma facilidade.

Sou uma pessoa que, quando gosto de um tema, quero aprender tudo sobre ele, descubro 80% sobre esse tema, mas nunca chego aos últimos 20%. Acho que nós, neste mundo, podemos ser generalistas ou especialistas, não é? E, neste momento, tenho me pautado muito mais por ser uma pessoa generalista, apesar de ter uma área, um vertical, que é a área do empreendedorismo, onde tenho trabalhado mais, mas, mesmo nessa área, sou uma pessoa generalista.

Acho que, no futuro, mais cedo ou mais tarde, gostava de de me focar mais porque eu acho que a formação de uma pessoa deve ser em “T”. Há uma barra de coisas que sabemos, onde somos generalistas, mas depois há 2 ou 3 tópicos onde nós nos aprofundados perfeitamente.

Se calhar, o meu tópico, hoje em dia, será o empreendedorismo. Foi o tópico onde eu aprofundei mais a formação, a aceleração a pré-aceleração.

O growth foi uma área que também tenho aprofundado, mas growth também é uma área gigantesca. Portanto, dentro do growth, ainda posso encontrar uma área bem específica, onde consigo aprofundar os meus conhecimentos.

Portanto, acho que o meu maior problema diria é mesmo esta questão da minha falta de foco, a minha incapacidade de me manter interessada no mesmo tópico durante muito tempo.

Tens algum hábito que sintas que te faça bem ou que te ajude a focar mais?

// André

Tens algum hábito que sintas que te faça bem ou que te ajude a focar mais?

// Inês

Eu não tenho nada assim, nenhum hábito que me ajude a focar. Gosto de, de vez em quando, fazer algumas introspecções: “mas então o que é que está a acontecer na minha vida?”. 

Eu também ando sempre com um caderno daqueles “Moleskine”, de capa preta, onde vou escrevendo muita coisa, muitas vezes reflexões que vou fazendo ou notas de reuniões, que, muitas vezes, me ajudam a manter mais ou menos o foco. Até fiz um artigo sobre isso.

Eu tenho 7 desses cadernos escritos até agora. Fui atrás para ver o que tinha escrito e é interessante ver a diversidade de ideias que eu lá tinha, a diversidade de falhanços que eu lá tinha, coisas que nunca aconteceram, ideias que nunca saíram do papel, mas claramente mostrou o meu desfoco. Ás vezes, tento-me autocontrolar, mas não é assim muito fácil…

// André

Por acaso, nunca me consigo concentrar com cadernos Moleskine, porque, para já, eu tento fugir do que é analógico e, depois, o meu problema é que eu nunca volto atrás para ler.

// Inês

Mas eu acho que não seja necessariamente mau tu não olhares para trás. Eu acredito mesmo que, quando estás a escrever à mão, há um tipo de reflexão que fazes que é diferente de quando estás a escrever no computador, ou de quando estás só a pensar.

Eu lembro-me perfeitamente de, quando andava na escola, eu fazia resumos que nunca lia, mas, só o ato de escrever, acho que me fazia refletir sobre as coisas de uma forma diferente. Porque é muito mais lento, muito mais devagar.

Eu acho que é positivo, por si só, escrever à mão. Eu também não escrevo páginas e páginas, muitas vezes são pequenas notas, rascunhos.  

Qual foi o melhor conselho que alguma vez ouviste?

// André

Qual foi o melhor conselho que alguma vez ouviste? Posso partilhar o meu, acho que é a primeira vez que partilho com alguém, portanto sente-te um bocadinho privilegiada com isso.

Eu tinha 14 anos e o meu pai vira-se para mim e diz: “olha, André, só tens é de tentar. O não está sempre garantido”. 

// Inês

Houve vários conselhos, ao longo da minha vida, que eu fui assimilando.

Por exemplo, a minha mãe a dizer que “nunca se deve desistir, a persistência é uma coisa importante”. Ela também dizia que: “a partir do momento que tu te comprometes com alguma coisa, deves ir até ao fim”. E apesar do meu desfoco e de, às vezes, o meu desinteresse, eu meto muitas energia nas coisas para que andem rápido e para levá-las até ao fim. Não sou uma pessoa de desistir normalmente.

Depois há outra questão, que é o trabalho. Se calhar, não é bem um conselho, mas tanto os meus pais, como a minha avó, que são pessoas muito próximas de mim, sempre me mostram o valor do trabalho. Muitas pessoas perguntam-me: “como é que consegues fazer tanta coisa?” É uma questão de trabalho, não há segredo. Quem me dera que houvesse ou que eu tivesse 50 pessoas a trabalhar para mim. É mesmo trabalho, é sentar e fazer o trabalho.

E outra coisa muito importante que os meus pais me incutiram muito: quando se está a fazer uma coisa, só se está mesmo a fazer aquela coisa. Por exemplo, uma pessoa que esteja a estudar, não pode estar a mandar mensagens pelo telemóvel ao mesmo tempo. Quer dizer, poder pode, mas na realidade, ao final do dia, pouco estudou.

Quando estava na escola ou na faculdade, eu estudava muito concentrada, fechava as janelas, desligava o telemóvel, aquelas 3 horas era só para aquilo. E, hoje em dia, não é diferente, mas o trabalho que faço é diferente. Sento-me, normalmente na cozinha ou na sala, sozinha e, nas 3 horas seguintes, 4 horas, o que seja, é só para fazer aquilo. Tenho uma lista e sigo a lista. Apesar de não ser muito focada em interesses, acabo por ser focada em termos de trabalho, o que me ajuda. 

Recentemente, disseram-me que, quando se entra numa nova organização, é importante escolher as 3 coisas que se vai fazer bem, principalmente quanto tens algum cargo de liderança. Não podes tentar atacar todos os problemas e mais alguns. É importante que definas as 3 coisas que nos próximos 3 ou 4 anos queres fazer e que realmente vão deixar um legado ou um impacto naquela organização. Isso também foi uma coisa interessante que me marcou.

Gostas de algum desporto específico?

// André

Gostas de algum desporto específico?

// Inês

Sim! Eu joguei, durante muitos anos, futebol. Eu adoro jogar futebol. Adorava, vá… Agora não sei jogar, de todo. Normalmente, jogava como extremo direito. Também consegui jogar como extremo esquerdo ou, dependendo, também podia jogar a médio centro.

Eu gosto muito de trabalhar em equipa e acho que isso é vem de ter jogado tantos anos futebol. E pronto, tenho um desporto favorito.

// André

E qual é que é o teu clube preferido?

// Inês

Futebol Clube do Porto.

Se tu não estiveres a trabalhar, o que gostas de fazer num domingo à tarde?

//André

Se tu não estiveres a trabalhar, o que gostas de fazer num domingo à tarde?

// Inês

Eu gosto muito de ler, é uma coisa que eu gosto muito de fazer.

Ultimamente, decidi ler livros técnicos, porque não tenho tempo para ler livros de ficção. Apesar de que, quando pego num livro de ficção, é um fim-de-semana inteiro e acabo o livro (são muito fáceis de ler).

Também gosto de ver televisão e um filme, às vezes, não sabe nada mal. Gosto de dormir, de vez em quando, à tarde.

Acho que dormir é o grande segredo do séc. XXI e as pessoas acham que é ótimo dizer que se dorme 4h. Há pessoas que conseguem, e eventualmente o Marcelo Rebelo De Sousa consegue, mas ey não consigo dormir 4h. Ou melhor, consigo, mas no dia seguinte sou muito pouco funcional. Gosto de dormir 7, 8h às vezes e gosto muito daquele estado de semiconsciência, em que a gente está quase a dormir, mas não está bem bem a dormir. 

Às vezes, esforço-me para estar nesse estado algum tempo porque eu acho que é onde me surgem muitas ideias. E portanto ao domingo à tarde é isso. Ao domingo à tarde gosto de sair. Gosto muito de passar um fim de semana numa conferência, com amigos. Mas eu também não tenho nada assim de extraordinário que faça ao domingo à tarde. Gosto também de trabalhar. Houve uma altura em que dizia que no domingo à tarde era quando me rendia mais. Porque as pessoas não respondem a mails no domingo à tarde.

Qual é o teu prato preferido e que último filme viste?

// André

Qual é o teu prato preferido e que último filme viste?

// Inês

Olha, eu gosto muito de bacalhau com broa. 

O último filme que vi foi o documentário com o Leonardo Dicaprio. Antes desse, também vi o “Concussion”, com o Will Smith. É um filme fácil de ver, baseado numa história verídica. É um filme interessante, que nos faz pensar.

Eu li já 2 ou 3 livros sobre o futebol americano, porque acho que, em termos de estratégia e tática, é muito interessante. Entretanto, vi uma série sobre futebol americano e, não sendo um desporto que eu jogue ou que eu pratique, é um desporto que eu acho interessante.

Qual é o teu momento Uncle Ben?

// André

Qual é o teu momento Uncle Ben?

// Inês

Não vou ser tão inspiradora como o Uncle Ben, não é? Mas eu acho que: humildade acima de tudo.

Muitas vezes, acho que, por aparecerem na televisão, nas revistas, em todo o lado, as pessoas acham que, pronto, já fizeram.

Eu já vi muitas startups ou muitos empreendedores que, por terem tido um investimento ou por terem saído no Observador, ou no Público, ou no Dinheiro Vivo ou não sei quê, o trabalho já estava feito e a verdade é que não está feito, é o início.

Há um livro, que se chama “Meditações do Imperador Marcus Aurelius”, [em que o imperador] escreve para ele próprio. Portanto, não é um livro é mais um diário. 

O homem mais poderoso do mundo daquela altura escreveu para ele próprio sobre esta necessidade de treinar para ser humilde, porque, para ele, era muito fácil ser arrogante. Era o homem mais poderoso do mundo, mas vemos constantemente no livro a preocupação dele em manter a humildade, manter-se com os pés assentes na terra, ter compaixão perante o outro.

Para mim, isso são lições muito importantes e que me ficaram desse livro, obviamente. É algo que eu tento viver na minha vida, porque, para mim, é algo muito importante.

O que é que tu imaginas a acontecer daqui a 5 anos?

// André

O que é que tu imaginas a acontecer daqui a 5 anos, quer seja a nível pessoal, profissional? Será que ainda vamos ter mundo com o Trump? O que é que achas?

// Inês

Eu não sou muito de fazer previsões.

Há uma coisa que é clara. O processo de transformação está a acelerar.

A minha avó tem 83 anos, durante grande parte da vida da minha avó o mundo esteve muito parecido. Estava diferente, está sempre diferente. O Homem foi à Lua, voltou da Lua, criámos a estação espacial internacional, ou o vaivém espacial, nasceu o telemóvel, nasceu a internet… Mas o mundo não estava assim tão diferente. Mas, no último século, acho que a aceleração, o desenvolvimento, está claramente a acontecer. Portanto o mundo daqui a 5 anos vai ser muito diferente de qualquer expectativa que a gente tenha devido a esta aceleração.

Pessoalmente, eu espero estar a fazer aquilo que gosto, com pessoas que gosto à minha volta, obviamente, que consiga, efetivamente, ter um impacto positivo no sítio onde eu estou, no país, cidade, no mundo. No mundo eu acho que é demasiado, mas, vá… E pronto, ver o que é que acontece também.

Acho que a gente tem de estar aberto ao futuro. Acho que somos nós que escrevemos o futuro, não é? Mas muitas vezes o mundo acontece à nossa volta e nós temos de nos ir adaptando e percebendo onde é que nos encaixamos.

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